The Crown – 2ª temporada (2017) | Crítica

Após uma temporada que abordava todo o peso da Coroa, quando discutiu todas a problemáticas de Elizabeth II, sendo símbolo monárquico, religioso e ainda ser mãe, mulher, irmã, esposa e amiga, com todos os seus vínculos bem trabalhados, mas o final mostrava toda a sua angústia que não poderia ser transparecida em uma foto oficial, agora nessa segunda temporada é a vez de discutir o matrimônio, um dos cliffhangers que envolvia o ator Matt Smith como Príncipe Philip.Resultado de imagem para will keen the crown

O criativo e engenhoso roterista Peter Morgan sabe muito bem misturar a ficção com os fatos. Mesmo sem saber o que de fato acontecia dentro do castelo em muitos diálogos, sua capacidade arranjá-los como fatos é impressionante. Não é enganação, é simplesmente qualidade de um texto verossimilhante. Diante disso Morgan vai no íntimo, no mais humano daquela família real, desconstruindo aos poucos a visão utópica de Buckingham visto que a modernidade, as mudanças sociais, foram exigindo ousadias e contato com o mundo civil. E o que o produtor da série escolhe como tema é o casamento, uma união por parte religiosa, civil ou social de extrema importância para uma sociedade. Tomando tal assunto, as amizades civis são estudadas quanto a influência da realeza, a exemplo do divórcio dos Parkers, o casal Kennedy dos EUA cria outro paralelo sobre o amor aparente e o verdadeiro, a princesa Margareth em seu casamento infeliz e responsivo a outro casamento, mostrando o peso da coroa quanto a seu primeiro a amor e suas decisões auto depreciativas, além claro de discutir a prole, as decisões sobre o príncipe Charles fomentam ideias sobre os papeis dos pais na educação dentro de um matrimônio.

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Mas o ponto mais central que a temática foca é o Duque de Edimburgo. Em seu descostume com a inesperada realeza na sua vida, o seu papel fora do comum de não ser o líder e sim ser acompanhante de sua esposa no meio do século 20, tudo isso é explorado. As suspeitas de infidelidade, suas participações de clubes e viagens inesperadas mostram um peão fugindo do xadrez. Um homem de visões modernas ao mesmo tempo, quando propôs a primeira coroação televisionada, muito incomodado com o seu papel de fantoche, o conflito interno é muito esperado. A série cria uma dubiedade no público com seu personagem, explorando seu passado de família nazista, sua infância sofrida, muitos detalhes que geram empatia ao mesmo tempo que sua atual situação de conformismo e desconforto na tutela da coroa incita raiva pelas consequências refletidas em Elizabeth. É um personagem amplamente elevado e Matt Smith expõe a sua melhor atuação, abrangendo todos os sentimentos com uma naturalidade que só um roteiro bem feito não é suficiente.

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Com certeza Elizabeth II, protagonista interpretada com poder absoluto por Claire Foy, dominando completamente o sotaque e trejeitos de uma rainha, passa por uma desenvoltura exemplar que exige situações diversas para sua atuação. Sua humanidade é trazida a tona mais facilmente, uma ligação telefônica não concluída é uma estratégia do roteiro para mostrar afastamento do seu marido, gracejos entre eles são elevados pela pontualidade, e nada disso pode afetar a mente de uma governanta mais que críticas ferrenhas de um jornalista conservador, trazendo mudanças para o palácio. Sua intriga com Jackie Kennedy é um auge, é o ciúme, é sua fagulha para se libertar dos simbolismos reais, sair da perfeição, aproveitar sua fama de rainha e também cometer erros de interferência política. Até mesmo um amadurecimento de suas decisões com relação a seu tio Edward, ajudada por uma belíssima participação do pastor Billy Graham interpretado por Paul Sparks, tudo isso faz com que 10 anos seja uma experiência e tanto para Elizabeth, culminando nas mesmas dúvidas com seu marido. Ela se faz forte a cada episódio, Foy acompanha isso magistralmente. Ela consegue organizar a muito custo todas as suas funções, mesmo que a esgote.

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Para concluir, é gratificante a ficção e o verossímil resultarem em uma obra tão boa. O tanto de reflexões sociais com o menos sociáveis representantes que são os reis, os príncipes que Maquiavel projetou uma receita de governo, que o amor vem depois do respeito. Mas pensando nesses governantes como humanos é surpreendente como seus símbolos podem ser desfeitos, a princípio, no entanto podem ser restaurados. Os papeis sociais vão além da vida conjugal, vão no exemplo, mais do nunca para a realeza. A coroa tão pesada vira muitas vezes moeda de troca e justificativas, e porque não um poder de que tanto causa dor crie um propósito para melhorar o ser humano, um matrimônio.

A maior percepção de The Crown é que por trás de cada foto há uma história, uma história longa que Peter Morgan conseguiu contar com âmago real.

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9.5

Nota

9.5/10

Davi Lima

Cinéfilo, fã de Star Wars, e ainda procurando formas de ver mais filmes para aprimorar a massa crítica. Colocando a sabedoria e o equilíbrio aonde for.

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