outubro 27, 2020

A crença e o destino

Dentro de uma narrativa esverdeada e estilosamente atraente, o filme da virada do século é pensativo sobre o controle e a escolha, com fundamentos mitológicos e religiosos, explicados e testados na forma de contar o clássico.

Mesmo com a modelar jornada do herói, ela é exercitada com os novos preceitos articulados pelos discursos na trama. Os personagens seguem ás vezes o discurso e ás vezes uma própria personalidade, então o filme acaba trabalhando com o paradoxo, presente também no cristianismo, do determinismo/destino e do livre-arbítrio/responsabilidade , uma dinâmica que está em todos os cantos, até na ação estilosa que por si é dramática pelo efeito de câmera lenta ou da rapidez

O alcance das diretoras Wachowski é de ponto atemporal e eterno, mesmo que seja muito pautado na época dos anos 90. Há muitas roupas de couro e uso da tecnologia pertencente ao seu tempo noventista, mas é nas referências as diversas histórias que dialogam com a conversa de sonhos, verdade e heroísmo é que surge um particular, uma amálgama oriental e ocidental que torna o telefone e a Matrix termos que possam ser expandidos em filosofia, ou reduzidos em ideologias. O preto e os óculos vão se ajuntando numa iconografia distinta na fotografia de tons verdes, que os seres pensantes adentram em um mundo programado para descobrir o transcendental.

O personagem Neo de Keanu Reeves é o tal Messias, mas as diretoras também o tornam o próprio expectador em descobrir o caminho e percorrê-lo para crer na profecia do Escolhido. É um filme que se prova nele mesmo, uma narrativa de justificativa e resposta, mas que não limita interpretações do particular criado em universo e regras. São tantas conexões com obras bem fixadas na memória do mundo ocidental, desde da “Bela Adormecida” – no sentido inverso da mulher salvando o homem – a “Alice no País das Maravilhas” que vira instintivo o expectador reconhecer a mesma história, mas amplamente ressignificada e expansiva, com seu conteúdo podendo ser considerado ativista para causas sociais, contracultural por um viés teológico e uma inserção de cultural oriental aglutinada na cultura pop.

Por fim, a Matrix é um realismo quebrado e futurista, um cálculo religioso entrando na prerrogativa pós-moderna pela arte clássica de dois hemisférios terrestres, alcançando uma medida atemporal por enxergar o anseio histórico do ser humano por pensar sobre sua realidade verdadeira e um salvador para ela. 

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