The Post – A Guerra Secreta (The Post, 2017) | Crítica

Mais do que o fato histórico, a força de “The Post – A Guerra Secreta”, um dos nove indicados ao Oscar 2018 de melhor Filme, está no que ele representa para os dias de hoje. Longe de ser uma coincidência, o projeto foi confirmado em março de 2017, um mês após Donald Trump atacar mais uma vez a mídia em um evento republicano. “Temos que lutar contra eles. Os veículos de imprensa são muito inteligentes, astutos e desonestos. Se irritam quando expomos suas notícias falsas”, bradou.

A urgência com que a produção foi realizada diz muito sobre as suas pretensões artísticas e políticas. Para sua ovação ao bom jornalismo e em defesa da liberdade de expressão, Steven Spielberg trouxe Tom Hanks, com quem trabalhou em obras premiadas como “O Resgate do Soldado Ryan” (1998) e “Ponte dos Espiões” (2015), e Meryl Streep, em uma parceria inédita.

Chamada de “superestimada” e “lacaia” da democrata Hillary Clinton pelo presidente norte-americano, após ela criticá-lo no Globo de Ouro ao receber o prêmio honorário Cecil B. DeMille em janeiro de 2017, sua escolha também pode ser vista como uma resposta, tal qual sua indicação ao Oscar de melhor Atriz.

Apesar do título “The Post”, em referência ao jornal Washington Post, quem começou o escândalo dos Pentagon Papers (Papéis do Pentágono, em português), sobre a mentira da Guerra do Vietnã contada pelos governos que ocuparam a Casa Branca no período, foi o New York Times. O roteiro faz jus a ambos. A decisão de focar no primeiro, contudo, se justifica quando se percebe outro gancho relevante e atual.

A história começa com Katharine Graham (Streep) que, obrigada a assumir o comando do Post após a morte do marido, tem de lidar com o lado financeiro e editorial, num ambiente dominado por homens. Como socialite, seu papel se restringia apenas em dar festas. Quem lhe responde diretamente é o editor-chefe Ben Bradlee (Hanks). Obstinado em conseguir os documentos e divulgá-los, o jornalista não teme as ameaças dos poderosos por acreditar na liberdade de imprensa, diferente de quem comanda o jornal, precisando convencê-los.

Que os meios de comunicação tem uma relação muito próxima com aqueles que estão no poder, todo mundo sabe. E isto acontece tanto lá fora quanto aqui no Brasil. O roteiro de Liz Hannah e Josh Singer faz questão de retratar os dilemas éticos que envolvem tal proximidade, o que enriquece a trama. Não podemos jamais, contudo, ser ingênuos a ponto de acreditar que não há omissão e manipulação em prol de interesses escusos e nada democráticos, independente do veículo.

Apesar de começar a temporada de premiações como um dos favoritos, “The Post – A Guerra Secreta” chega à cerimônia do Oscar no dia 4 de março com meras duas nomeações. Se num primeiro momento estranhei, agora me parece correto. Mais preocupado com o conteúdo do que com a forma, Spielberg entrega uma obra bem realizada, como de praxe. Se o meio é burocrático, no entanto, a mensagem é bem clara e direta. Jornalismo importa sim, deve estar ao lado dos governados e ser assegurado sempre pela inegociável liberdade de expressão. Toma Trump!

  • Duração: 116 min.
  • Direção: Steven Spielberg
  • Roteiro: Liz Hannah e Josh Singer
  • Elenco: Tom Hanks, Meryl Streep, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie

Moisés Evan

Formado em Jornalismo, acredito na cartilha de "The Post", e também em Publicidade, mas sem a intenção de fazer "Três Anúncios para Um Crime". Como "Lady Bird", ao alçar voo para outras bandas, cheguei até aqui. Tem horas que o mundo parece nos envolver numa "Trama Fantasma" ou nos colocar numa enrascada como em "Dunkirk". Não vou mudar "O Destino de Uma Nação" escrevendo sobre o que mais amo, mas sempre que eu postar, espero que você "Corra!" para ler e não tenha receio de comentar e/ou discordar. "Me Chame Pelo Seu Nome"? Melhor não. Mas pode ser pôr @sr.lanterninha. Vivo num mundo de sonhos e monstros e um dia hei de descobrir "A Forma da Água" em seu estado mais bruto e belo.

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