outubro 25, 2020

Tim Burton – A Ignorada Permanência do Estranho.

Em 2019 o filme “Dumbo”, live action da Disney, foi lançado e recebeu uma mista recepção com uma bilheteria abaixo do esperado pelos acionistas da empresa do Mickey, especialmente pensando na glorificada nostalgia que essa franquia de repaginação realista intenta avidamente. O resultado não surpreendeu muita gente, ao menos por dois motivos aparentes: a carreira de Burton fora de conexão, sem brilho nos últimos anos, e a distância temporal da animação original de “Dumbo”, que não teria poder suficiente para um efeito de memória no público. Ambos argumentos ignoram o porquê Burton ter se tornado sinônimo de baixa qualidade artística e como em uma sociedade informada, se a nostalgia não tivesse força o suficiente, ao menos a problemática racial envolvendo uma animação do Walt Disney durante a Segunda Guerra Mundial seria incitação suficiente para tempos politizados, fora o resgate negativo da animação ser uma motivação ainda mais atraente para reformular em uma linha politicamente correta. Porém, do mesmo jeito que defendem correções sem averiguação de tal, as explicações que fazem Tim Burton menos popular estão no próprio filme e ao menos em uma das mensagens dele.

O que faz Dumbo ser um olhar de um autor.

Mas antes de explorar isso, é preciso encontrar no filme “Dumbo” o que teoricamente fez o diretor famoso. Em geral pode-se afirmar que o encanto pelo estranho, em que personagens como “Dumbo” e “Edward Scissorhands” pela aparência e preconceito são taxados como infelizes pela sociedade, mas a tal estranheza torna a possibilidade de ser melhor em algo que muitos não são. No aspecto do falso espetáculo dominado apenas na busca por dinheiro, o impossível se torna real por meio do elefantinho que alivia a ironia de sonhos vendidos para o ludibriamento, não oportunidade de fato. Esse pensamento singelamente filosófico em um conflito social espelhado na aceitação de um animal com orelhas grandes é que permeia a filmografia de Tim Burton, em especial nesse seu último filme. Numa geração pós-moderna que o estranho virou moda e as coerências se perderam na luta contra as categorizações sociais traumáticas, o filme da Disney comenta sobre como refletir sobre o que é diferente não é trazer de volta divisões sociais, é se encantar pela diferença que um elefante voador faz na vida de pessoas que perderam sonhos, ou são enganadas. Nesse processo do filme Burton também demonstra sua apreciação pela configuração dos cenários como personagens de seus filmes, como é o caso do “Dreamland”, e seu exercício constante de se alinhar aos estúdios sem perder seu autorismo. São esses fatores que tornaram Tim Burton famoso, mas o próprio tempo o tem apagado pelo suposto relaxamento autoral de repetição. De comentar sobre as mesmas coisas peculiares, sem atualizações significativas, de um homem que continua usar sua infância como projeto. 

 

No entanto fica a dúvida se o autor precisa diferenciar, se “re-originalizar”, ou seus comentários como em Dumbo em relação a venda de sonhos, do estranho normalizado e falta de coerência são divagações de um artista anestesiado pela a comercialização de seu estilo? O que aconteceu com o estranho? É possível se encantar por ele de maneira direta, sem artifício do realismo? Por que a cena final de Dumbo mostra uma evolução darwinista de um elefante que voa na selva? A fantasia esquisita ainda ajuda sobre a realidade ou é interface ultrapassada? São perguntas interessantes sobre arte e sobre um cara esquisito que se mostra indiferente às percepções padronizadas de bom ou ruim quando ama o diretor Ed Wood e demonstra o belo em impulsionar a relação da arte com o seu eu.

Big Eyes": Waltz ist ein Genie darin, alle für dumm zu verkaufen ...

Tim Burton dentro da Teoria de Autor passa por todos os testes. Sua assinatura existe nos contrastes de cores, no apreço pelo design gótico/fantasioso e nas temáticas de estranheza e na criação de universo atemporal, nada realista. Seu estilo é distinguível até mesmo em seus filmes menos estilizados, como “Big Fish” e “Big Eyes”, sempre apresentando uma característica do autor, até mesmo as menos enfáticas na sua filmografia, como o discurso sobre as artes plásticas como em “Big Eyes”, e a inspiração em folclores como em “Big Fish”. Assim, Tim Burton mesmo trabalhando com grandes estúdios nunca abdicou de sua direção criativa, do burtonesco, e na suas entrevistas como para o The Hollywood Reporter, na época de lançamento de Frankenweenie, nunca acreditou muito nessa cisão entre o diretor e o estúdio, embora soubesse que havia divergências. Ao mesmo tempo ele defende que as histórias de seus filmes sempre são algo que o conecta, que ou são sobre ele, algo relacionado a infância, ou que são dele. Embora a fala de um artista não provê tudo, mas é um argumento vindo do próprio realizador quanto a teorias do século XXI que ele estivesse num processo de auto-plágio, ou escolhendo os roteiros de maneira menos cuidadosa, basicamente perdendo o brilho. Embora sejam possibilidades que Burton pode não revelar, ou até ele perceber na arte que fala por si só, o impasse pode ser melhor observado pela temporalidade.

O autor dentro do tempo

Em 2019 temos um panorama dos filmes de super-heróis em alta, live-actions da Disney, o qual Dumbo faz parte, um processo cada vez maior de evasão do cinema de médio orçamento e um tratamento cinematográfico que anseia mais realismo e lógica nos roteiros, que especialmente tratem de questões pós-modernas, relações com humanismo e causas sociais que permeiam na vocalização do público na busca de representatividade. Indo agora para metade da década de 80, ano de 1985, quando o personagem televisivo e de apresentações de palco Pee-Wee foi ao cinema com a produção da Warner Bros., dirigido por um diretor recém desempregado pela Disney, conhecido por assustar crianças e falar sobre morte de maneira sombria. Pode não ser uma comparação alinhada de contextos ou características temporais, mas fica claro onde Burton começou e onde ele terminou. 

Tim Burton and Paul Reubens (with snakes from the pet store fire ...

Os anos de ouro do diretor aconteceram especialmente na década de 90, ou pelo menos são reconhecidos como anos dourados porque o diretor estreou dentro do desenvolvimento subcultural dos Freaks, Geeks and Weirdos, que dá nome ao documentário televisivo dirigido por Rob Fox. Essa era a década do Fim da Guerra Fria, tempos em que a voz juvenil exacerbou contra as padronizações artísticas, sociais, valorizando os fora da curva, os estranhos, os não categorizados. Como várias subculturas, houve uma capitalização dessa dinâmica noventista, e Tim Burton representava a voz temporal, a aceitação das diferenças com os fantasmas bonzinhos de “Beetlejuice” e a inclusão de um homem com tesouras nas mãos em “Edward Scissorhands”. Burton no seu jeito desajeitado, que só usava preto, trouxe o discurso em favor da pluralidade, contra tabus, usando humor sexual meio cômico, meio crítico, algo indecifrável assim como seu estilo. Uma expressão artística única representativa. 

 

Infelizmente a mesma imagem de Burton no tempo é desgastada não só por suas escolhas de projetos de ampla passividade de críticas negativas, como os remake de “Planet of the Apes” e “Charlie and the Chocolate Factory”, mas como o discurso de se encantar pelo estranho foi normalizada no discurso de aceitação popular que a Cultura Pop distribuiu. O burtonesco não é mais uma peculiaridade, é uma moda. Enquanto Burton trabalhava a estética como base para o confronto social, em meio a inocência encantadora da estranheza, misturando vários fatores sem muita programação, desenvolveu na indústria Hollywoodiana uma perspectiva artisvista, e imediatista lucrativa. O confronto social se baseia na troca, não necessariamente na originalidade, na figuração representativa, não a história exclusivamente que atenda agendas minoritárias, e o discurso precisa ser mais direto, realista, lógico, não relacionado ao design estético. Os moldes mudaram, há menos alternativas em meio a tanta concorrência padronizada, e embora Burton diga que é inspirado pelo tempo(talvez na entrevista para o Bafta), sua temática não mudou com a sociedade, mesmo ela ainda falando de algo perpetuado na sociedade: a categorização social opressiva(Corpse Bride ou Alice in Wonderland), o julgamento negativo ao estranho(Frankenweenie) e sobre a destituição artística na comercialização da arte(Big Eyes). 

Curtas | Vincent – Sessão das Três

Mas se o diretor não mudou seu estilo, a sociedade mudou, novas exigências, por que a problematização quanto a Burton ter sido com o tempo menos popular? Não é natural? A questão não se é certo ou errado, natural ou não, e sim que, se ele trata de uma temática que ainda é atual e que por mais que ele não mude sua estética consegue discutir sobre seu tempo nela mesma, o que aconteceu com o ESTRANHO afinal? O que é estranho para as pessoas? Burton mesmo trabalhando na inclusão da estranheza, a ideia era torná-la altamente particular. Não é à toa que o diretor tenha suas inspirações no que aspirou na infância. Se baseia no encantamento que se torna aceitação, quando Edgar Allan Poe fazia seus terrores era reconhecido, quando Godzilla nos filmes japoneses e os stop motion de Ray Harryhausen tornaram os monstros mais importantes que os humanos em um live action, quando os Estúdios Hammer fizeram os monstros da Universal serem os protagonistas das histórias, e o ator Vincent Price transformava um filme de baixo orçamento em uma sofisticação. É nesse refúgio da infância que revela uma conversa mais abrangente como a estranheza é tão especial em se ter, que se eleva em diferencial, se mostra belo, não feio, nem em adjetivo e nem estudo da arte.

A estranheza do autor

Assim, o diretor Tim Burton “usa a fantasia como um meio para lidar com e aprender sobre a realidade”-  disse ele numa entrevista sobre seu filme “Alice in Wonderland”. Sua modernização por exemplo pode ser vista no uso do CGI para criar a ilusão do artificial, ou no alcance do terror, do susto no sombrio mais desolador e menos mixado de comédia e drama, algo que Burton fala que mesmo que seus filmes não sejam realistas, a vida envolve essa mistura teatral da tristeza e da felicidade nos variados momentos. A interpretação do cinema para ele é bem mais abstrata do que se imagina, em que o ator Michael Keaton descreve em sua entrevista para o filme “Batman” de 1989 que se sentia confortável com a direção do autor no quesito de entender o quão incompreensível poderia ser o que se estava trabalhando no longa-metragem. Burton considera em seu filme o design e os atores parte da mesma coisa em seu planejamento aleatório de inspirações. Não há lógicas concretas, o constante assusta o diretor. 

 

Ao longo de sua jornada cinematográfica Burton não gostou de pensar sobre o futuro, em seus filmes fala-se muito sobre o passado e ele diz ter mais medo da realidade do que de monstros. Sua maneira de olhar cinema se propõe a desafios a partir de um conforto. Sua bizarrice consiste nisso, porque mais que ele seja acusado de se repetir, os fatores burtonescos sempre se alternam. Como observar “Big Fish” como um filme de Tim Burton? Muito mais pela temática e de como o diretor se excita em trabalhar com atores, tornando-os estranhos em meio aos sets e as limitações orçamentárias que sempre o engrenaram artisticamente. Por isso Burton se anima tanto para projetos de stop motion, pois segundo ele é o processo de ativação energética de algo vivo, o mais técnico nas entrevistas que o diretor chega a comentar, é falando sobre stop motion. Não deixa de ser um exercício estranho na imagem em relação a rapidez da animação 3D, mas Burton revela sua cosmovisão desapegada da realidade uma resposta a ela, pois parte de um princípio agregador, não em partes. É como seu filme, em uma estrutura que usa o flashback como recurso dramático na maioria dos filmes, e mecanicamente na montagem de seus filmes o primeiro ato é a apresentação de todo o seu filme, uma indução de ambiguidade na deformação do realismo (algo do Expressionismo Alemão), que no segundo ato é dramatizado, com representações exagerada das emoções, talvez num romance e finalizado em dúvida gostável, por ser imprevisível tanto no conflito social revelado quanto na caracterização do personagem principal. Esse reflexo já se sabe que é pessoal, mas compreende-se também essa olhar para a realidade além, um estranho que num reflexo de experiência assistida, num confronto com a realidade, evidencia ela própria não se aceitando pela racionalização limitante.

Ed Wood – IFC Center

Então, partindo dessa ideia de fugir da racionalidade ou lógica, dois personagens contribuem para essa ideologia de não realismo estranho de Burton, especialmente em um filme biográfico de “Ed Wood”. O primeiro que se pode citar é Johnny Depp, o ator que está em quase todas as obras do diretor, em que quando perguntado o porque ele revela que Depp compartilhava a mesma estranheza que ele, ao ponto que com o tempo eles conversam sem diálogos. Num ponto de vista mais técnico, para preservar uma estranheza diferenciada com um mesmo ator em vários filmes, Burton esclarece que Johnny tinha uma capacidade de transformação e a maneira sem falar que ele conseguia interpretar. Esse quadro em branco, como os bonecos de stop motion, que Burton conseguiria enfeitar para qualquer personagem ao seu modo. E a segunda figura, icônica na mente de Burton, que é interpretada por Johnny Depp, é Ed Wood. O espírito do “pior diretor de todos os tempos” acompanhou Tim Burton no sentido de compreender o sucesso ou não de seus filmes, além da compreensão lógica de decisões, criando pela identidade com o material e pelo que ele poderia fazer com o criador. O Cinema B, o exagerado e administrado pelo poder do entusiasmo criativo, era o que levava a mediocridade a patamares maiores, segundo Burton. O que eleva isso tudo de fato é a sinceridade do artista, o que diferencia o toque na obra. Por isso Burton consegue convencer o público no filme “Ed Wood” que o “péssimo trabalho do diretor” era uma crença inabalável da expressão realista e artística de qualidade, algo que Orson Welles, ídolo de Wood, foi reconhecido em “Citizen Kane”.

O tempo sobre o autor

Percebe-se que Burton tem inspirações ousadas, fora da caixa imposta pela Arte Moderna, usando os objetos dela para ameaçar. Embora sua ameaça seja com base no encantamento do estranho, suas obras como “Batman” e “Batman Returns” apresentam um ponto fundamental para compreender como a crítica e o público contemporâneo, em busca do pós-moderno, no alcance do realismo imediato e menos ambíguo da imagem, se pautam hoje no cinema de imposição disfarçada, numa domesticação da estranheza. Ambas obras do Homem Morcego foram caracterizadas por jornais da época como moralmente controversas, ou que trariam medo as crianças. Foi isso também que expulsou Burton de seu cargo na Disney quando execrado “Hansel & Gretel”, telefilme passado no Halloween, foi tirado do ar, o curta-metragem “Vincent” foi acusado de perigoso e o curta live-action “Frankenweenie” foi a gota d’água para o estúdio do Mickey, que anos depois traria-o de volta para dirigir “Alice no País das Maravilhas”. Porém o ponto fundamental é que os filmes do Batman se tornaram piada, até mesmo pela má interpretação do estranho profundo e inteligente da loucura em “Batman Returns”, e Burton foi deixando de ser ameaçador para representar uma figura pastiche, um figurão bizarro. Um reflexo de subestimação quanto ao potencial da excentricidade em ter um vínculo com o real, de criticar por exemplo a criação das crianças no século XXI com “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Ou até mesmo com o musical do Barbeiro Demoníaco atribuir vingança econômica a uma cegueira por uma falta de cosmovisão em prol da família. E se Burton não desenvolve o feminismo com Alice, invoca nas Rainhas Branca e Vermelha uma coerência quanto a guerra contra a imposição de padrões físicos na sociedade.

lucy sweeney | Tumblr

Não são apenas pequenos pontos na narrativa de seus filmes, até porque isso não iria fazer sentido com sua maneira criativa retratada na harmonia técnica de energização de um universo único na mise-en-scène, de integração completa num anseio pelo estranho belo. O crítico famoso e já falecido Roger Ebert comenta cronologicamente em favor de Burton. Embora “Edward Scissorhands” seja a obra de Burton que se eternizou por ser didático e romântico em sua abordagem do estranho, fora a questão pessoal envolvida na obra que atrai o fervor pelo relativismo emocional exacerbado e sem critério para fazer arte, Ebert critica negativamente o filme em 1990 exatamente por seu caráter apático de formulação narrativa, como já foi citado aqui, num processo de três atos pouco amenizado pela montagem, e sim enfatizado pelo didatismo. Porém Ebert chega em 2007 com elogios a Burton pela maturidade em “Sweeney Todd”, do mesmo jeito que crítico A.O Scott discorre no N.Y Times sobre “Big Eyes” e seu comentário sobre a Crítica e o Artista. Se isso não é um reflexo de Tim Burton em pleno 2014, no mínimo mostra alguma diferenciação. É bem verdade que no cinema Burton contemplou uma marca, e fugir dela surge também como um erro crasso já que ele tanto a preserva naturalmente. Porém não é o caso, até mesmo quando há uma abstração visual do exagero característico do autor, ainda há no “erro” de testar novos públicos ou novas dinâmicas, como acontece ainda assim no conforto de “Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children”, que demonstram um diretor não apenas consciente de quem é, como consciente de seu tempo e como o estranho precisa ser redescoberto.

 

O que intriga é que mesmo com a comercialização do estranho, algo que evidenciou a marca Burton, ele passou do patamar de diretor para ARTISTA. Ao longo de sua carreira, seus métodos de criar filmes com base na sua infância e criação de mundos únicos com base na artes plásticas fizeram de Tim Burton influente em escrita de poemas, livros, esculturas, desenhos, entre outros caminhos artísticos que levaram a ter um museu itinerante que chegou até mesmo no Brasil. Talvez para o cinema ele tenha se tornado menos influente com o público e jornalistas, porém continua a ser convidado por Faculdades de Cinema e Arte. Do mesmo jeito de sempre, como ele diz, “ainda aprendendo a falar”, ele comenta principalmente sobre seus filmes de stop motion como a amálgama burtonesco que é o ultrarromantismo mainstream de “Corpse Bride”. E outra corrente artística que Burton na verdade ajudou a promover, inclusive com esse filme, foi a corrente musical de Danny Elfman, o grande contribuidor de basicamente todas as trilhas musicais e instrumentais de Tim. Muito a capacidade de estranheza e harmonia cosmogônica de seus filmes vale pela instrumentação alinhada de Elfman. Se em “Batman Returns” a transformação de Selina Kyle é impactante ou o encanto dos voos de Dumbo ressoam é porque o lirismo e os enfeites melódicos de corais e sons agudos agem no processo magia peculiar que alça voo.

La Agenda Setting: Dumbo lidera la taquilla pero… no vuela

Por fim, voltamos a “Dumbo”, o filme taxado com problema de desenvolver personagens, de ser irônico em sua crítica e desregulado ao ponto de ter uma péssima recepção lucrativa. Esse é o presente do artista Tim Burton com sua obra. O que intriga é quando Colleen Atwood, a figurinista clássica de seus filmes, descreve em entrevista que havia mais limpeza visual de macetes burtonescos, e junto a isso há uma volta de Michael Keaton e Danny Devito ao elenco. Dentre os vários aspectos citados, de mudanças, permanências, comprovação autoral e tática de trabalho com o estranho, e como isso na temporalidade tem sido mais descontínuo do que de fato a falta de envolvimento temporal de Burton, há a clara formação mista de conforto no tratamento de um personagem parecido com seus variados heróis de filmes, mas um olhar especial para o silencioso olhar desse herói.

 

Se a percepção direta do encanto tem se perdido, a ambiguidade sobre os olhos pode ajudar num processo “almático” de reflexo dos seres observados e os seres observadores. Quando Dumbo voa Burton antes de tudo foca em quem olha para aquilo. E se os outros personagens tem seus dramas verbalizados, Dumbo tem seu drama imagético. Nesse sistema é que o impacto da comercialização da estranheza do circo e do protagonista se eleva nessa relação de olhares sobre o que se comenta. Por isso, se aproveitar do estúdio Disney como “revolta” inaugural concreta contra a perda social pelo encanto pela natureza estranha, que faz parte natural da realidade, é nada mais nada menos que Burton conciliando o que ele acredita na relação do Filmmaker e Studios para seu projeto pessoal ser realizado, e como resultado do filme há um renegar do público, ou falta de compreensão de algum significado sobre a arte comercial contemporânea. Se o ponto artivista enfoca na importância de resistência diluída no Pop superficial de entretenimento, Burton se utiliza das mesmas armas para o mainstream, porém ele não entrega o live action fiel, ele entrega a continuação corrigida pelo contemporâneo e eleva o ser não incluso ao ser mais superior da sua natureza. Isso vale desde do personagem de Colin Farrell que sem braço enfrenta o desafio, a de Eva Green que vira uma artista ao voar com Dumbo.

The 18 Films of Tim Burton: Ranked from Worst to Best - Mandatory

São sobre heróis sociais que anseiam pelo belo além do que se pode ver. Desde dos anos 90 os fantasmas, Batman e Edward são heróis solitários que não se incomodavam, mas foram aceitos pelo heroísmo, embora renegados em oportunidades. Em uma segunda década, nos anos 2000 com Edward Bloom e Willy Wonka , em um mundo estranho que as pessoas se dizem normais, os heróis estranhos são julgados. Na década seguinte, finalizando com Dumbo, vemos o discurso sobre como o estranho é falsamente comercializado, usado como arma para ganhar lucro, e os heróis são os que seguem no encanto além do dinheiro. No final ambos são reflexos de Burton no tempo, o que o mainstream que dita um diretor em um patamar isolado que acaba colocando filmes seguintes como inferiores por não serem tão estranhos, macabros ou grandiosamente originais quanto os anteriores. Do diretor de Hollywood que representava o AUTOR se tornou plágio de si mesmo para muitos, o mesmo que transformou as logos da Warner Bros. com a estética de seus filmes, o mesmo que transformou o estranho em marca foi engolido por ela. Como bem disse Scott Mendelson na Forbes, em um artigo chamado How Tim Burton Became Uncool, “Em certo sentido, ele não morreu como herói, mas viveu o suficiente para se tornar vilão, ou pelo menos os status quo de uma indústria e população do cinema que não tem mais medo de suas visões”.

Um autor, afinal

Com “Dumbo”, assim como Ed Wood conseguiu com “Plan 9 from Outer Space” na cinebiografia dirigida por Tim Burton em 1994, encontrou o projeto certo de sua contemporaneidade que projeta sua visão crítica para ser alcançada por mais pessoas e de forma mais singela, por meio do próprio encanto possivelmente perdido.

11 Of The Most Interesting Facts About Tim Burton - The Tim Burton ...

%d blogueiros gostam disto: