Toy Story 4 | Crítica

Na nova narrativa Pixar de anseios modernos a cisão com a volta para casa e a auto-crítica a metáfora de “Toy Story”, do brinquedo ser destinado a ser de uma criança, o estúdio parece se reinventar ao mesmo tempo entra num campo irônico não programado. 

Image result for toy story 4 woody

Nesse novo filme novas regras para mundo dos brinquedos é estabelecida, o Garfinho do lixo de torna um brinquedo, não há mais o produto feito e gourmetizado pelas memórias de uma criança, há o próprio criativo impresso na formação de um novo ser brincável. Paralelamente isso mostra uma evolução enquanto Woody deixa de ser usado nas brincadeiras de Bonnie, sua nova dona. Sem motivos explícitos, ele é apenas deixado de lado, mas envolto de sua relação com Andy ele transforma os conflitos de Bonnie e seus sonhos como única missão de preservar, não a si próprio. Então começa o processo de compreensão que o brinquedo acima de tudo precisa se amar e depois ser amado, humanizando-os mais, afastando um pouco os humanos da equação de dependência.

Tematicamente o filme vai se expandido, cria-se novos arcos que vão secundarizando Garfinho para evitar uma maneira de repetição de trama de outros filmes, ou até mesmo com intuitos de permitir que ele mesmo se assumisse um brinquedo, em vista que ele se considera um lixo, não sua formação de brinquedo. O que soa irônico começa daí, que enquanto se prega a ideia costumeiramente forçada de Woody para caracterizar o brinquedo passa também pela aceitação, pela falta de preconceito, ao mesmo tempo que o roteiro simplifica o porque o Garfinho se considera lixo como destino imposto, embora também dentro do mundo da animação é um artifício apenas de metáfora, sem entrar em complexidades.

Na relação dos dois personagens há uma riqueza cômica e dramática que paradoxam e da mesma forma o roteiro cresce em dois gêneros cinematográficos que vão associando ao tema da relação humana e brinquedo, principalmente na construção de contextos que direcionam falsamente uma expectativa. O terror com os sustos recorrentes e as cenas cômicas construídas num imaginário prolongado vão submergindo as ligações implícitas frágeis dos arcos dramáticos que em suma agregam a trama de Woody originada como Garfinho.

Image result for toy story 4 characters

Diante das amarrações o que se vê é uma inserção de esquemas profundos em si, mas que quebram a mecânica da franquia “Toy Story” e reincidente na Pixar. Primeiro que no enxerto da história não se busca o vilão, a caracterização de forma alguma é enganosa quanto a construção maléfica de Gaby Gaby, porém nenhum de suas ações de fato ruins, sempre deixando claro seus objetivos como um brinquedo antigo, tudo se passa na relação que Woody tem com seu próprio material e de certa forma o público também. 

Nessa contínua inserção de fatores Betty não deixa de ser um apesar de sua importância para Woody. A confusão positiva, também ao mesmo tempo, é que a personagem é a ideia inserida de liberdade do brinquedo do destino de pertencer a um dono, de um individualismo positivo do brinquedo quanto a se sentir bem sem uma criança, que o abandono por velhice, por falta de funcionamento, por não realizar o sonho imposto no brinquedo por uma propaganda ou apenas por motivos desconhecidos de falta de afeto(ambos fatores trabalhados nos arcos de vários personagens novos) não devem definir a falta de vida de um brinquedo, até porque sempre haverá situações infantis que os brinquedos vão ser utilizados. Apesar dessa função de extrema relevância em discurso e clímax, suas lembranças afetivas para com Woody fazem um misto de conveniência e aleatoriedade quanto suas ações, como se o filme tivessem constante ironia de não tentar moralizar, tentar se modernizar mas sem abandonar sua premissa com o Garfinho que de certa forma de relacionam. Se antes os brinquedos eram construídos com histórias de seus donos(como Andy e Bonnie fazem), agora eles, os donos, podem não apenas fazer seus brinquedos de outros materiais como também os brinquedos, dentro dessa grande metáfora da vida que não vemos, ser feita por ela mesma.

Image result for 4k wallpaper handy toy story

É assim interessante como a direção do roteirista de Divertida Mente relaciona o atual com a dinâmica comum de brinquedos serem inutilizados, um “bug” mental na realidade de todo o projeto de Lassester como um todo, sem recorrer a aparelhos eletrônicos, por exemplo. Porém ao final se revitaliza essa ideia formadora de “Toy Story” do mesmo jeito que no aparente último longa renova os horizontes no processo discutido, a cisão se faz na narrativa, nos variados arcos que se complementam, mas que não necessariamente se confluem, e então decisões, viradas, detalhes técnicos de caminhada vão se desmanchando, então se volta de novo para a criança, a missão de relacionar a perdição interior como falta de propósito, segmentando a conclusão em uma nova proposta Pixar com a velha, assumindo talvez a ironia tarde demais no drama, enquanto se escondia em meios aos gêneros cinematográficos já citados.

Como ficam os amigos de Woody? Como ficam os antigos brinquedos do Andy? Entende-se que eles se encerraram em Bonnie por ser usados por ela, mas fica a dúvida sobre o que se desenrolou entre os brinquedos de Andy durante tantos anos. Tudo era apenas propósito para a criança? A fuga, o fugir dos brinquedos comentada por uma boneca como autoconsciência cômica é simplesmente deixada de lado? Entre metáforas e profundas, em variadas interpretações que crescem o filme aparentemente um cuidado de foco de Lassester(Toy Story 1 e 2)ou um furor dramático engajante de Urich(Toy Story 3) parece faltar, mesmo que tente-se uma nova linguagem divisiva de curtas dentro de um filme.

Image result for toy story juguetes

Enfim, pode-se entender que quem parece entender todas essas aventuras de bonecos e crianças é Randy Newman. Especificamente com o personagem Caboom percebe-se que ele compreende a dinâmica idealização de crença confortável envolta disso uma comicidade pela descrença dos personagens em volta, mesmo que haja omissão disso para que funcione a missão escrita. Então o compositor não denota as nuances, como em todo o filme melancoliza tudo, se permanecendo fiel ao que cada personagem sofre e anseia.

Entre fotografias muitíssimo bonitas e uma trilha sonora e composições letradas que resumem bem o filme, o arranjo do roteiro adaptado e creditado a um apanhado de pessoas ao longo da produção demonstra, quem sabe, um marco de super atualização da Pixar, seja na comédia ou na verbalização de temas adultos, no entanto precisa utilizar seus novos dons não para aliviar e sim impulsionar dentro do que foi escrito, se não o percurso irar percorrer sempre no limiar da ironia dentro da própria endeusada temática.

Related image
  • Duração: 100 min.
  • Direção: Josh Cooley
  • Roteiro: Andrew Stanton e Stephany Folsom
  • Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Annie Potts, Tony Hale, Keegan-Michael Key, Madeleine McGraw, Keanu Reeves, Jordan Peele, Chistina Hendricks.

Davi Lima

Cinéfilo, fã de Star Wars, e ainda procurando formas de ver mais filmes para aprimorar a massa crítica. Colocando a sabedoria e o equilíbrio aonde for.

%d blogueiros gostam disto: