Vamos Falar de Polêmicas #02 – Cota para o cinema nacional?

Vingadores Ultimato, como previsto, reina nas bilheterias, são recordes atrás de recordes possibilitados pela demanda alta de público nas expectativas de ver a conclusão de 22 filmes e 11 anos de universo Marvel nos cinemas. Acontece que os quase 80% de salas ocupadas pelo filme em sua semana de estreia, ofuscou o lançamento do nacional “De Pernas Pro Ar 3”, fazendo diversos cinemas tirarem suas sessões em busca de atender a demanda gigante do blockbuster. Assim, vários discursões vieram a tona novamente, principalmente a respeito da cota de tela, já existente, para o cinema nacional. As queixas vieram a ANCINE, assim o representante Ministro da Cidadania, Osmar Terra, decidiu reestabelecer essa cota, ainda de números incertos, mas obrigando um tempo mínimo para exibição de filmes nacionais e provavelmente com alguma porcentagem para ocupação de salas.

O que importa mais não é exatamente a informação concreta a respeito da atitude tomada, mas sobre o que levou a ela ser tomada. Diante desse cenário, é claro que haveria uma divisão de opiniões. Por um lado, haverá pessoas achando, com razão, um exagero tendo em vista que foi claramente uma opção por oferta e procura, onde seria mais viável para qualquer cinema, exibir o máximo possível de Vingadores para aproveitar o momento auge da Marvel e tecer lucros para se próprios. Por outro é extremamente compreensível a atitude da ANCINE e teoricamente correta, para uma tentativa de influenciar o consumo e a valorização da cultura nacional, desvirtuando do monopólio americano, algo que todo país faz e de brinde proporcionando uma maior diversidade de opções para o cinema, não permitindo um domínio completo de apenas um tipo de filme.

A grande questão é que o problema é muito mais embaixo e a solução na prática só surge um efeito contrário. Se o domínio internacional de Hollywood a respeito de distribuição impede que produções nacionais sejam valorizadas, as produções geralmente com esse privilégio conseguem desvalorizar ainda mais o território nacional. Como se não bastasse a toxidez já presente na TV aberta, em um monopólio de produções emburrecedoras e repetidas no programa em décadas, até passar da exaustão, o mesmo ocorre no cinema em devidas proporções. São raras as exceções de filmes fora do circuito de comedias besteiróis da Globo Filmes que tem espaço nas salas por muito tempo, já que dentro do próprio cenário brasileiro existe um monopólio por parte dessas produções em sua maioria medíocres, por trazer as mesmas características do que é feito na TV.

Quando não é a Globo Filmes é a Record e seus filmes de caráter religioso fazendo parcerias com as igrejas para banca-los no maior número de salas possíveis e como se não bastasse ainda bancar todos os ingressos para seu público, independente deles irem ou não assistir, como foi os casos absurdos de “Os Dez Mandamentos” e “Nada a Perder”, sessões lotadas sem praticamente ninguém assistindo de fato os filmes. Então, a proposta provisória de solução já presente desde 2001, se mostra por que foi adotada dessa forma, já que ela não tem nenhum efeito, enquanto o país não sofrer uma radical mudança cultural a respeito do consumo de entretenimento. O domínio dessas duas vertentes anula o senso crítico de leigos quaisquer e os direcionam apenas para consumir esse tipo de obra mastigada e desprovida de substância, enquanto outros artistas independentes realmente interessados em proporcionar reflexões, precisam ralar e muito para conseguirem algum retorno que incentive a criação de outros.

Se o cinema brasileiro se limita a dramas, comedias e romances é por que quem se arrisca a fazer de gênero não quer virar mais uma mera estatística esquecida, se o Brasil não está entre os melhores países para se cursar cinema, é por que ao termino as únicas oportunidades de trabalho com bons lucros financeiros vão ser direcionados as vertentes dos monopólios, caso contrario é apenas a paixão que moverá a dificuldade de se estabelecer como alguém de respeito autoral no meio. É fato que isso melhorou nos últimos anos, muito pelas próprias campanhas da ANCINE na valorização de filmes nacionais em premiações internacionais, além da criação do Grande Premio do Cinema Brasileiro, mas ainda é algo muito de nicho, essa mentalidade precisa ser transfigurada para o publico geral, por que no final das contas é ele quem irá bancar de fato o aumento e melhoria dessas produções.

Algo que poderia partir do próprio monopólio, como é em Hollywoody, as grandes produções podem até dominar, mas são elas que bancam várias e várias outras de caráter menor que aumentam a diversidade do cinema, isso não acontece aqui por que não convém e quando convém é sempre partindo de interesses maiores e não realmente criativos. Então, antes de qualquer atitude mais definitiva a respeito das cotas, é preciso pensá-las também em uma forma de combater essas práticas e aumentar a divulgação de projetos mais independentes e de qualidade. Mesmo que o leigo possa olhar para elas a princípio e não gostar por está acostumado com outro tipo de produção, ao menos já pode ser pensado como uma solução a longo prazo.

Infelizmente a um prazo realmente bem longo, porque mais do que no cinema e na tv, o brasileiro não valoriza a própria cultura em nenhuma vertente, é quase algo da nossa índole criada a partir da história comportamental do povo, adjunto da globalização em massa do American Way of Life e vários outros fatores. É muito difícil não pensar nessa temática com pessimismo, colocar a cota de tela como uma solução definitiva é uma tremenda ingenuidade, assim como olhar para a cota racial como um meio certeiro de acabar com o racismo. É uma construção de uma mentalidade histórica através de anos e que não tem tempo previsto até ser quebrada, mas ela só irá através de atitudes, então para que isso aconteça, defende-la se torna como algo obrigatório para quem defende e se importa com a mudança de cenário, por que ela ao menos pode significar um começo, caso seja aplicada de uma forma correta.

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