Vamos Falar de Polêmicas? #12 – Oscar So White

Pode parecer meio tarde para falar sobre esse assunto não é mesmo? Afinal ja faz quase três anos que essa campanha surgiu. Sim, foi tarde para falar, por que de 1929 para 2017 foram 88 anos para se perceber a discrepância que é os brancos em relação aos negros na academia. Contudo, essa discussão vai muito além disso, a academia foi sim e ainda é muito conservadora e ela deixou brecha para que esses números assustadores viessem a se tornar fatos, mas o problema é muito mais embaixo, esses números refletem um cenario social discrepante de oportunidades em todas as esferas da sociedade para brancos e com os negros e se estende a qualquer uma das minorias e existem exemplos bem práticos para entender onde está enraizada essa problemática.

Digamos que tenha um pote de 100 bolinhas, essas representam todos os profissionais da indústria cinematográfica, onde 90 bolinhas são brancas e 10 são pretas, sendo bem generoso nessa analogia. 5 dessas bolinhas seriam sorteadas para representar as melhores, mas apenas 1 das 5 seria a grande escolhida. Aí eu pergunto, quais as chances de sair uma bolinha preta? Ou pior quantas das 5 seriam pretas? Aí é que tá, não tem muitas, então com isso as chances matematicamente são muito menores de sair. Dessa forma, não tem como cobrar do Oscar premiar mais bolinhas pretas, se mal tem bolinhas pretas dentro do pote para serem premiadas. Em resumo o problema não está na possível descriminação do Oscar, mas sim na falta de espaço da indústria cinematográfica geral que impede que esses talentos sejam descobertos, amadurecidos, para assim serem premiados.

Então quem consegue esse lugar final, geralmente precisou batalhar muito mais do que um branco para consegui-lo, pois precisou passar por barreiras também sociais. A mais dura realidade é que negros não possuem as mesmas oportunidades que brancos, não importa em que cenário seja, não importa o nível intelectual dessas pessoas, a discriminação racial ja está quase que enraizada no ser humano, o que torna uma igualdade entre brancos e negros injusta, se não houver uma intervenção externa, é para isso por exemplo que serve as cotas, algo que talvez viesse a ser necessário nesse cenario, contudo não é o ideal, principalmente por que abrir brecha para diferentes interpretações e discursos desnecessários que poderiam parecer desmerecedoras ao trabalho dos profissionais negros, intencionalmente ou não.

O mundo hoje está muito mais tolerante do que já foi, então é possível da uma progressiva no combate dessa problemática através de atitudes mais inclusivas. Como foi o caso de Jordan Peele ainda nesse ano, quando afirmou que iria escalar seus filmes apenas com protagonistas negros como forma de usar o seu privilegio incomum dentro da indústria para promover uma maior inclusão de protagonismo negro em filmes de grande orçamento, algo que como o diretor falou já é comum com brancos. Infelizmente, mesmo com Peele correto e preciso na sua fala, ele abriu espaço para pessoas de má índole usassem de forma distorcida para justificar sua intolerância apontando uma outra “pior”, que nesse caso, não existe e mesmo que tivesse algum fundamento, não tem como dizer que essa declaração do diretor tenta de alguma forma diminuir os “brancos”, até por que o próprio cineasta trabalha com elencos mistos e não é apenas para reforçar sua crítica social, como é o caso de seu mais recente filme “Nós”.

Esse caso demonstra bem essa margem para interpretação que o próprio Oscar caiu em equívoco tempos depois. Depois de fazer um momento histórico premiando “12 Anos de Escravidão”, houve uma sucessiva de esnobadas a filmes excelentes nos anos seguintes, assim a premiação veio a ser pressionado por esse público para que não fosse um prêmio isolado. E assim, ela entende completamente errado em um nível que até filmes fracos como “Estrelas Além do Tempo” ganharam um espaço em 2016, somente por conveniência e pressão sobre a academia, além do prêmio principal para Moonlight claramente reflexos dessa politicagem do que pela própria qualidade da obra. O ápice disso se provou nesse ano com “Green Book”, levando melhor filme em cima de “Pantera Negra” e “Infiltrado na Klan” que trabalham a mesma temática de forma mais densa, mas que não são produzidos por brancos e ainda por cima repetindo o cenario em 1989 entre “Conduzindo Miss Daisy” e “Faça a Coisa Certa” Coincidência?

A impressão é que toda essa inclusão social da academia soa como uma entrega de falso protagonismo aos negros, como se fosse um prêmio por obrigação, uma cota não intencionada que como disse abre margem para todas essas interpretações. Vivemos em um período de retrocesso ao tentar negar conceitos já previamente estudados para terem sido estabelecido, então tudo parece passível de outras nuances que não existem como foi a reação para as atitudes de Peele, que mesmo feitas de forma respeitosa para tornar a indústria mais equilibrada, o que vem realmente melhorando, a ignorância por parte de alguns e a politicagem da premiação prejudica o andamento desse caminho já tão difícil. É preciso primeiro de algum modo alcançar essa igualdade em oportunidades de uma forma mais honesta, para a indústria cinematográfica ser mais justa e talvez o Oscar tambem se tornar sem pensar nisso apenas como uma forma de se vender.

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