Vamos Falar de Polêmicas #14 – Desabafo: Censura, ANCINE e Bolsonaro

Esquerda, direita, não importa, se é uma pessoa em sã consciência, você defende a liberdade de expressão, até porque é ela que permitiu a existência da democracia, do livre arbítrio, do voto pelo qual Jair Bolsonaro foi eleito com justiça por um povo culturalmente pobre, que em média não lê mais de 1 livro por ano, e não valoriza o cinema nacional. E nessa desculpa de não o valorizar, acaba tendo a pachorra de concordar com a frase surreal do presidente de que o dinheiro público não pode ser reservado para filmes como “Bruna Surfistinha”, pelo puro descaso que ele tem com o filme por rebater temas que não convém ao que o seu conservadorismo quer aproveitar. Ele tem total direito de não concordar e não gostar das temáticas abordadas no filme, ou quaisquer outros de pré-julgamento, assim como qualquer não entendido de nada de cinema tem o direito de repetir as asneiras ditas pela sua torcida política, o que não pode é, independente de lado, defender a censura por gosto pessoal.

Tentando não entrar tanto em deméritos políticos, afinal não é minha área, a afirmação de Bolsonaro só demonstra uma ignorância de quem provavelmente não sabe nem o que é de fato a ANCINE, algo que pode ser espelhado em qualquer brasileiro que o apoia. A agência regula a lei do incentivo cultural, que como o próprio nome já diz, incentiva produções independentes a saírem do papel com auxílio financeiro e muitas vezes, criativo, na inserção de profissionais mais adeptos à produção, melhorias em equipamentos, dentre outros. Ela não monopoliza a criação cinematográfica no país, qualquer um pode financiar e distribuir o filme a sua maneira, a grande questão é que isso não é tão simples diante de tantas desigualdades sociais e financeiras contidas no Brasil, que sempre foi desprovido de um consumo regular da cultural nacional. Uma marginalização leva a outra, é um ciclo que ainda tem longo caminho a ser percorrido, e o “filtro” criativo passa longe de ser uma solução plausível pelo simples motivo de que ele não leva a lugar nenhum, limitando a arte que deve ser ilimitada.

Argumenta-se o uso indevido do dinheiro público pra isso, como se cultura não fosse importante na movimentação econômica e social de um país. É lógico que deve ser visto como um investimento, até porque é ela que constrói a identidade do cidadão intelectualmente, no caso do brasileiro, só o fato disso estar sendo debatido já demostra o quanto ainda estamos rebaixados a entender atitudes diante de contextos. A privatização pode ser algo bom, mas a indústria não tem a menor capacidade de providenciar isso como nos EUA, por exemplo, porque mercadologicamente é inviável. Aí no sentimento egoísta a pessoa vem a afirmar que “não dou dinheiro para só ver porcaria”, sendo que ela nem ao menos tem a sensibilidade de entender somente uma das diversas variáveis que circundam a produção cinematográfica no país, ou de buscar aprender mais sobre o próprio cinema, que já foi responsável por um movimento cinematográfico chamado “cinema novo”, que inspirou caras como Martin Scorsese na “Nova Hollywood”, que basicamente moldou tudo o que você consome hoje como arte.

E independente disso, por que não se pode financiar um filme “ruim” também? A qualidade é separada de quaisquer outros fatores mercadológicos. “Transformers”, como exemplo banal, pode ser dito como ruim para muitos, mas lucra o bastante para movimentar várias outras peças da indústria americana, e o tal “Bruna Surfistinha” que tanto incomoda Bolsonaro, na época lançada arrecadou o dobro do necessário para ser considerado um sucesso, levando mais de 2 milhões de pessoas aos cinemas. Sem contar que ele ignora completamente também os fatores extra filme, como a movimentação de empregos e empresas de alimentação que se sustentam muito dos arredores do cinema. Então, todo esse bate-papo pseudoeconômico é furado, pois o Brasil, assim como qualquer país que não tenha cinema avançado, ainda é beneficiado com sua presença no estado até quebrar essa barreira. Em outras palavras, a ANCINE, com todos os erros, PRECISA existir.

E por fim, reflito sobre a frase final de Bolsonaro a respeito do “valorizar mais os heróis nacionais”, mas que heróis seriam esses? No ponto de vista geral, é fato que o cinema brasileiro carece sim de uma valorização maior de sua história, mas julgando pelo repertório cultural demonstrado pelo presidente em suas falas, não foi bem isso que ele quis dizer. Ele quer na verdade proporcionar uma vanglorização de seus heróis ideológicos, e quando ele propõe que outras vertentes sejam “filtradas”, não está proporcionando a diversidade cerebral da arte, mas sim uma propaganda ideológica lúcida de seu ponto de vista, atitude muito parecida com a vista no nazismo durante a 2ª Guerra Mundial, onde era “filtrado” o conteúdo que não batesse com as ideologias seguidas por Hitler. Não que o cenário possa vir a ser igual, mas é uma reflexão a se fazer principalmente se é um admirador do que de verdade é o cinema e a arte em geral, onde cada um tem a liberdade de demostrar suas ideologias, temáticas e tabus da maneira que bem entender. Não importa se concorda ou não com que está sendo dito, diga não a qualquer tipo de repressão artística, porque se você defende, pode abandonar a barca a qual você não merece pertencer.

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