Vamos Falar de Polêmicas #15 – Os Monstros que a Netflix criou!

A Netflix trouxe uma revolução no consumo do audiovisual ao abrir as portas do streaming para o mundo, uma “locadora” de fácil acesso para filmes e séries que podem ser vistas no tempo e da forma que se deseja. Diante das possibilidades, o serviço foi ganhando um tamanho cada vez mais gigantesco no mercado geral de entretenimento. Hoje, dos mais cinéfilos até os mais leigos, todos de alguma forma a consomem, graças ao intenso e inteligente trabalho de marketing e otimização do seu serviço. Porém, esse árduo trabalho que tanto conquistou o público geral vem com algo muito perigoso para o cinema, dois “monstros”: a concorrência e o conteúdo fácil exacerbado. Vamos falar de cada problema individualmente para evitar suas ambiguidades distintas.

A primeira, principalmente, é um repeteco histórico de todas as vezes que novas tecnologias surgiram para superarem as antecessoras, o questionamento de até onde esses precursores irão aguentar. Nesse caso mais específico, a grande pergunta feita: diante da variedade da concorrência fornecendo tantos outros modos a fim de facilitar a vida do consumidor do audiovisual, o streaming vai acabar com o cinema? É algo muito difícil de se analisar, porque o fator tempo é fundamental para a compreensão dos fatos, sendo muito difícil de prever até quando certos meios irão durar, mas temos uma palavra-chave que pode ser a resposta para essa questão. Vamos lembrar que no meio termo entre cinema e DVD, houve o vídeo cassete que não sobreviveu ao tempo, pois não encontrou a tal palavra-chave decisiva para a sua sobrevivência: adaptação.

Algo que o cinema, o rádio e o vinil, ao longo do tempo sofreram drásticas mudanças, no caso dos últimos por questão de sobrevivência, algo que está muito longe de acontecer com o cinema, porque por incrível que pareça, o streaming possibilitou até algumas melhorias para sua adaptação. O consumo do audiovisual nunca esteve tão forte por conta dela, então muitas obras que jamais ganhariam visualização em outros tempos, hoje puderam ser descobertas. O problema é que o cinema é ainda a melhor forma de se ver um filme, ver algo em tela grande é incomparável, portanto para os mais puristas, fica a impressão de que o streaming está tirando essa possibilidade por conta de tantas obras que já são concebidas direto no serviço, mas que mereciam ser vista na maior tela possível.

O que é parcialmente preocupante, mas não de forma condenatória, porque existe cenário para os dois viverem em harmonia, e mais ainda, se um dia puderem ser mesclados pelas adaptações naturais dos meios, é bem provável que isso seja uma verdade mais viva no futuro, já que os próprios cinemas vêm oferecendo serviços de pagamento mensal para aqueles que vivem indo várias vezes por mês ao ambiente. É bom para o consumidor a variedade, mas ruim pela obrigação de uma escolha, afinal, nem todo mundo tem a capacidade financeira de assinar e sustentar tantos serviços de uma vez, mesmo que existam milhares de formas de conseguir distribui-los para mais de um usuário. Em breve, a Netflix vai perder sua acomodação e se deparar com uma guerra de streamings com a chegada da Disney +, HBO Max e Apple TV, que tiraram boa parte de seu catálogo e apresentaram serviços à altura que poderão tirar o seu posto de melhor do mercado.

Essa acomodação nos leva ao outro problema mencionado, a quantidade se sobressaindo à qualidade do conteúdo que vem sendo muito “fácil”. O fácil nem sempre é ruim, ninguém tem saco só para ver o complexo, é preciso saber dosar, mas quando ele se torna o macro, isso prejudica e subestima o intelecto das pessoas ao seu redor. No caso, a Netflix vem misturando esse fácil com o marketing para as massas de uma forma perigosa, e isso vem sendo provado mês após mês com diversas produções originais medíocres a fim de ter uma gordura no catálogo, que por puro “hype”, ganham discussões muito maiores do que a própria obra permite. A Netflix sabe e é cirúrgica para sempre conseguir causar esse “ame” ou “odeie” onde quer, o problema é o verdadeiro cinema deixado de lado no processo, porque há sim muito o que apreciar no seu catálogo, inclusive conteúdos originais, mas que são jogados para escanteio, visando o maior número de visualizações.

Justificável, até porque a empresa depende do lucro para sobreviver, mas a quantidade exacerbada de filmes e séries superficiais está criando uma mentalidade igualmente superficial nos seus consumidores. Verdade que são muitas variáveis a se levar em conta, mas é muito frustrante ver que as possibilidades que a plataforma abrange para o “independente” sejam descartadas assim. Porque se é assinante da Netflix há algum tempo, sabe que ela consegue dosar, em meados de 2013 que foi o momento determinante para o seu crescimento, o que fez com que ela ganhasse todo esse alarde era a qualidade, não só do serviço, nem só do catálogo, mas de suas poucas produções originais que marcaram muito nessa época.

Contudo, uma vez criado esse monstro, não tem mais volta, o Youtube está aí para provar, vai ficar mais e mais difícil achar bom conteúdo cinematográfico e televisivo no catálogo, e com isso a vontade de continuar assinante também irá uma hora desaparecer, e a concorrência terá brecha para se provar, alimentando o outro monstro citado de forma negativa. Entre o maior otimismo diante de um e o maior pessimismo diante de outro, está a urgência que pode invertê-los. Ambos surgiram repentinamente e podem mudar tão rápido quanto, para o bem ou para o mal.

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