Vamos Falar de Polêmicas? #17 – Existe Mesmo Originalidade no Cinema?

Pode parecer uma interrogativa estranha, afinal tudo tem uma origem, inclusive na arte cinematográfica, mas será que nela só será original o que usou primeiro? Acredito que muito se banaliza esse termo, principalmente para colocá-lo de forma pejorativa a alguma obra ou de modo a ser mal interpretada, referindo-se a plágio e referência na mesma denominação, sendo que são adjetivos completamente diferentes que não medem exatamente a originalidade de um filme. Porque, em certo nível, todos os filmes são originais, feitos na própria visão que pode até ser copiada, mas nunca será completamente equivalente. Isso nos leva ao ponto principal da discussão, que é a FORMA.

Ela que irá definir a linha tênue entre os dois polos em termos analíticos de relevância, uma vez que conceitos de linguagem, clichês e arquétipos – dentre outros elementos narrativos – vão sempre ter surgido de algum outro lugar, e não importa muito de onde eles vieram, mas sim como eles serão novamente usados ou encaixados dentro do filme em sua unidade. Cada caso é um caso, logicamente haverá as vezes em que essa noção de pegar de outro lugar irá resultar em obras preguiçosas, por não saberem reciclar os elementos a sua maneira, algo recorrente no cinema em qualquer tempo, principalmente em Hollywood, que sempre viveu em ciclos e períodos de dominação de um gênero, que repetiram a mesma fórmula à exaustão: comédias românticas, faroestes e mais recentemente super-heróis.

Haverá também os casos em que referência pode ser articulada de forma honesta, fazendo o filme funcionar mesmo não se doando à reformulação para algo único, motivo pelo qual as fórmulas anteriores são tão usadas, pois elas sustentam em artefatos narrativos funcionais, tais como clichês de fácil identificação, que quando bem articulados garantem uma comoção genuína de quem os assiste. E claro, haverá aquelas que vão praticamente reimaginar esses elementos ao seu estilo, algo normalmente visto com cineastas mais autorais, que tentam quebrar esses paradigmas citados de alguma forma, em busca de uma assinatura de estilo, que nem sempre é uma garantia qualitativa, pois o resultado final é o que deverá ser analisado para ver se funciona ou não, o diferente ou a autoria nem sempre é sinônimo de qualidade.

Em suma, há uma linha tão subjetiva de variáveis no debate que torna essa preocupação de ser ou não original desnecessária, logo, um argumento frágil sem a elaboração de um contexto. Saudosistas julgam o parecido somente pela sua existência, não tentam colocá-lo em seu próprio momento, e nesse preconceito acabam criando uma mentalidade que transcende gerações, em que os bons filmes só eram da época “x”, pois lá se construíam histórias “originais”, e agora tudo é “mais do mesmo”. O que primeiro não é verdade, pois como dito, convenções sempre surgiram de outros lugares, e se for buscar as origens de tudo, vai acabar parando nos mesmos princípios das peças gregas onde tudo se origina, da tragédia à comédia, e segundo que todas as histórias se adaptam a sua época e às mentalidades diferentes do público em cada uma, e por isso a linguagem sempre evolui de patamar a cada década.

Por exemplo, aqueles que assistiam antes a filmes nos anos 80, e hoje fazem os filmes do séc. XXI, irão naturalmente transferir para suas narrativas inspirações daquela época, assim como aqueles que faziam filmes nos anos 80 adquiriram muito de seu repertório nos anos 50, e em ambos os casos, cada um teve que se adaptar ao que estava sendo levantado em pauta no seu respectivo contexto, e com isso a nostalgia adquire um caráter mais estudioso, como uma aula de história, aprendendo com o que foi importante antes e usando-o para melhorar o agora.

Portanto, o “mais do mesmo” no literal nunca irá acontecer, pois o cinema segue, assim como o “Princípio da Conservação das Massas” de Lavoisier, uma ideia de que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Então, antes de julgar algo por falta de originalidade, procure se preocupar mais com as inspirações que são usadas, e se elas funcionam ou são bem articuladas, que com a mera presença em si. A arte só é levada pra frente pelo seu carinho com o passado.

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