Vamos Falar de Polêmicas? #18 – Qual o melhor personagem de F.R.I.E.N.D.S?

Antes da “definição”, é necessário reforçar o caráter perspectivo da escolha direcionada, que não tenta em hipótese nenhuma diminuir a preferência de ninguém sobre qualquer um dos seis ótimos personagens da série, até porque essa é pessoal e vai de acordo com a identificação de cada um para com eles, algo que a própria série influencia por basicamente dividir o tempo de tela na mesma proporção, e dar características muito peculiares e de fácil reconhecimento. Naturalmente, essa identificação irá influenciar indiretamente na minha escolha, pois como qualquer um, tem aquele personagem que é mais parecido com meu jeito de ser, contudo, isso não será levado mais em conta do que os critérios para definir imparcialmente um veredito. Esses que são: regularidade de tramas dramáticas, os melhores momentos cômicos, atuação, transformação de personalidade ao final, romances ao longo da série e carreira de trabalho.

Sendo assim, já começo eliminando dois dos polos mais queridos da equação, Joey e Phoebe, por eles não passarem de alívios cômicos ou utensílios para alavancar outros personagens. Phoebe nunca teve seus dramas paternos plenamente explorados, tanto que seus pais só aparecem uma vez na série e fica em aberto a relação deles com o futuro que nunca chega. Algo que poderia ter sido resolvido facilmente no dia de seu casamento, contudo este acontecimento só foi para satisfazer os inúmeros fãs da personagem, tanto que nem foi construído como um grande evento, ele acontece na pressa de dar um final feliz para ela de alguma forma. Porque levando em conta o todo da jornada, não faz muito sentido ela escolher esse lado desejante de relações monogâmicas, tanto que era o que diferenciava ela de Monica e Rachel, que quase disputavam esse feito, sendo Mike um personagem perfeito para complementá-la no típico relacionamento mais despojado, e David aquele que representaria a tentação estável que ela em si nunca desejou, o que tornou ainda mais incoerente a escolha de seu final, por mais “bonitinho” que seja.

Joey, por outro lado, já chegou a ter mais destaque em vias dramáticas, principalmente nas primeiras temporadas em relação a seu bromance com Chandler, o que rendeu vários arcos ótimos, como a sua troca de apartamento e o mini triângulo amoroso entre ele, sua namorada passageira e o próprio Chandler, dois ótimos desafios de confiança entre eles. Ao final, na 8ª temporada, seu arco com Rachel poderia ter sido de bom grado, se fosse voltado para uma vertente de repensar o seu trato típico com as mulheres, de sair uma vez e depois não ligar mais para nenhuma, literalmente, algo que já havia sido beliscado em outro momentos, mas com Rachel, por ser uma das principais, tinha um ótimo potencial de revigorar o personagem de uma outra forma, entretanto a série optou por montar uma fanfic com ela, o que não fazia sentido tendo em vista que seu caso com o Ross foi algo estabelecido desde o piloto, e tinha que ser resolvido até o final por obrigação de coerência. Acaba que os roteiristas perceberam a besteira e apenas desistiram da ideia repentinamente, e nem falaram mais no assunto, mesmo pela forma fetichista com que se desenvolveu, poderia ter sido um divisor de águas para o personagem amadurecer, mas acabou o colocando como o “crianção” da turma ao final, não resolvendo sua carreira artística, que se resumiu a “Dr. Drake Ramorey” e nada mais.

Indo para Chandler e Monica, o casal improvável que conquistou o público, já se saem melhor, principalmente porque seus arcos se conversaram coerentemente, e evoluíram sem perder a essência de ambos os personagens. Particularmente, Monica é com quem menos me identifico, por seu jeito eloquente de organização e limpeza, além da competitividade quase tóxica, porém, são características que fazem sentido se aliarmos ao seu drama paterno. Irmã mais nova nunca recebeu a atenção que queria, aliada ao sobrepeso, acabou criando um complexo de inferioridade que conversa em todos os lados da sua personalidade. Na falta desse carinho materno, ela sempre se comportou como uma mãe para o próprio grupo, disposta a todo momento a ajudá-los servindo jantares ou oferecendo seu apartamento para ficar, o que acabou se tornando um dos principais símbolos de Friends. Chandler também tinha suas inseguranças com os pais, que foi por boa parte um mistério na série, e quando revelado, fez total sentido ao justificar suas nuances homofóbicas de masculinidade frágil com medo de se tornar o que o ele se tornou, no caso, um travesti, até há ótimas piadas a respeito desse lado mais afeminado dele.

Seu romance com Monica ajudou bastante a ambos na resolução de cada uma dessas inseguranças com a paternidade, principalmente quando eles juntos decidem criar um filho adotivo, onde ela deixa de lado essa preocupação já recorrente de ter a sua própria criança, e ele se torna um homem mais decidido do que quer, tudo isso sendo ligeiramente construído desde todo o arco do casamento. Entretanto, por mais que eles tenham se resolvido através de si mesmos com esse trauma, ainda ficou faltando um gostinho da relação deles com os próprios pais, por mais que precedente ao casamento haja um entendimento geral, falta à série entrar mais em profundidade nesses dramas. Fora que sua relação como casal pouco teve desafios no processo entre eles, vivendo um conto de fadas sem intrigas ou se resolvendo rápido demais, mesmo diante de várias oportunidades românticas promissoras, como a possível desistência de Chandler no dia da festa ou o real motivo para Monica ter ficado com Chandler a primeira vez, arcos que se fossem com Ross e Rachel teriam muito mais pano pra manga.

Com isso, acredito que a disputa fica bem acentuada entre os dois, considerando que mais da metade dos conflitos que levam a série adiante envolve pelo menos um deles, o que consequentemente exigia mais dos atores, logo Jennifer Anniston e David Schwimmer foram os intérpretes que mais se destacaram na composição mais instável de seus personagens, a todo momento passando por intensas transformações de sentimentos. Isoladamente, Rachel foi a que mais evoluiu ao longo do percurso, a mimada que fugiu do casamento foi virando cada vez mais uma mulher bem resolvida no seu sonho, e se desvinculando do típico estereótipo de patricinha desejada por todos os homens para uma grande mãe, sem tirar o seu jeito sensível de ser. Contudo, ela ainda não é a melhor por conta do controverso caso com o Joey, que diferente de outras situações constrangedoras que a série colocou, e logo mais desistiu, essa não se resolveu bem para a comédia e acabou sendo o principal divisor de águas na queda final da qualidade do programa.

Situações essas que eram muito comuns com o Ross e seu jeito azarão de ser, o que sempre levou a momentos de comicidade incríveis e memoráveis, o que gera boa parte dos episódios mais engraçados da série, até para os vários admiradores da série que não gostam do personagem pela sua personalidade mais excêntrica, nerd, insegura e machista. Para elas pode até parecer um absurdo essa escolha, contudo, Ross é o fator diferencial ao final de Friends para outras sitcoms, pois é um personagem à frente do seu tempo, causador de boa parte dos debates sociais complexos que a série se propôs a desconstruir a respeito da masculinidade frágil, algo que visto em outras séries do gênero é às vezes tratada de forma banal, ao rir com o personagem ao invés de rir de seu desarme frente a suas visões claramente ultrapassadas. E o melhor de tudo é que, ao longo do percurso, essa lenta desarmação revela um personagem muito humano, com valores e personalidade forte, que vai aprendendo com seus erros e se entrega ao emocional que tanto a sociedade o ensinou a bloquear. Assim, mesmo não sendo o mais adorável para muitos, a série consegue posicioná-lo dramaticamente e comicamente de forma igualmente eficiente, tornando-o o mais completo personagem da série, logo, o melhor.

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