Vamos Falar de Polêmicas? #21 – Filmes de terror geralmente são ruins, principalmente na atualidade… Será mesmo?

Tanto a crítica quanto o público, quando assistem a um bom filme de terror, soltam frases como “Em meio a um mar de produções ruins, finalmente temos algo bom”, ou “Os filmes de terror hoje estão cada vez piores”, mas será que é tão raro assim encontrar um filme de terror bom? Principalmente na atualidade? Falácia. O terror sempre foi de um nicho específico e por isso sempre deve ser analisado como tal. As afirmações, por parte de quem não entende o gênero ou não gosta de sua proposta, repetem-se nos mesmos argumentos baseados na superficialidade de dizer que o filme de terror só é bom se lhe der medo ou não, esquecendo de olhar para o gênero como qualquer outro, que tem como o objetivo maior contar uma boa história ou trazer grandes reflexões a sua maneira.

Eu afirmo que estamos vivendo o melhor momento do gênero e não só isso, ele nunca passou por nenhum período ruim. Nenhum cinema sobrevive de apenas um público específico, então até mesmo o terror precisa se vender de alguma maneira para as massas, buscando fórmulas para se comunicar com telespectadores fora do seu nicho, refletindo assim em 3 momentos muito marcantes na história do gênero: “Os Monstros da Universal”, “Slashers” e os “Scare Movies”. O primeiro é o mais conhecido pelo classicismo visual de criaturas amedrontadoras: Múmia, Lobisomem, Vampiro, Frankenstein, entre outros. Passando pelo seu auge dos anos 30 aos 50, e praticamente se desgastando no final dos anos 60. O segundo surge como uma americanização do Giallo italiano, as famosas cenas de perseguições entre assassinos e suas vítimas, acrescentando geralmente adolescentes e muito sangue, surgido e consolidado no final dos anos 70 e dominante até o final dos 90.

E o terceiro refere-se ao termo que designei para o estilo que tanto irrita os críticos (inclusive a mim muitas vezes), o terror construído a base de susto para forçar o medo de maneira apelativa. O “jump scare” sempre existiu, contudo nos anos 2000, com a modernização das técnicas cinematográficas e pela influência gigante do sucesso que James Wan conseguiu utilizando bem o recurso, ele passou a ser usado até a exaustão, principalmente em filmes de assombração, passando para todos os outros subgêneros, criando quase um movimento dentro do horror, de obras repetitivas e pouco inspiradas ou preocupadas na elaboração de atmosferas mais envolventes. Contudo, ela se mostrou muito eficiente para chamar a atenção do público geral, tanto que muitos desses filmes têm um orçamento baixíssimo, e acabam lucrando muito por serem mastigados o suficiente para qualquer um poder assistir sem se traumatizar, tornando a experiência do terror mais amena e divertida.

É verdade que isso criou uma mentalidade equivocada de que terror se resume a isso, ao susto apenas, que o filme de terror é bom se tem susto, se deu susto, caso contrário, não passa de um filme chato. Essas opiniões geralmente vêm dessas pessoas que o gênero atingiu com essa nova fórmula, contudo elas se estenderam para um norte geral de uma forma a todos pensarem que o gênero se tornou apenas isso. Daí vêm as afirmações citadas no início de que “os filmes de terror são todos iguais hoje em dia”. Mas se analisarmos bem o contexto, os dois outros movimentos tinham essa característica apelativa também, e por serem produzidos em massa e baseados em uma mesma forma, a maioria de seus exemplares realmente tinha qualidade duvidosa, mas hoje o contexto geral não lembra deles e sim apenas dos clássicos, dos que subverteram a fórmula, ou dos que melhor a executaram durante o seu período de dominância.

Naturalmente irá acontecer o mesmo com esse outro grande movimento ao longo do tempo, que talvez nem dure tanto quanto os demais, pois já vem perdendo força com a volta em massa do terror psicológico. Em cada geração, há os filmes que fogem da caixinha, mas muitos infelizmente são pouco valorizados ou até esquecidos pelo grande público, porque não convém com o tempo em que eles estão presos. Isso está mudando um pouco com a A24 e seus mais recentes filmes, conseguindo evitar esse limbo pela sua ótima capacidade de distribuição, fazendo esse nicho específico se expandir e o gênero ser reconhecido por mais pessoas da maneira correta, por mais que muitos os tratem como apenas a exceção, um equívoco, já que sempre foram presentes, mesmo que tendo agrupamentos maiores em tempos específicos, justamente no fim ou decadência de cada uma das fórmulas citadas anteriormente, para a transição de uma nova.

Fato é que o ruim sempre irá prevalecer, não só no terror, essa regra vale para qualquer gênero, é estatístico praticamente. Selecione um grupo de 100 dramas, por exemplo, todos serão excelentes? Não, somente os melhores vão se sobressair, os bons ficarão no meio-termo, e a maioria vai ser de médio pra baixo. A única diferença do terror para os demais é que essa maioria está mais exposta para o mundo, pois é o que vende o gênero. Ao adentrar em nicho, proporcionalmente, percebe-se que a quantidade de obras marcantes e boas será igual, isso independente de qual tempo é recortado. E se pegássemos o recorte de agora, nenhum outro gênero está tão representativo em temática e oportunidades para minorias, nenhum outro gênero vem rendendo tantas discussões pela forma como está adentrando nessas temáticas, isso é terror, ele explora não só nossos maiores medos como ser humano, mas como sociedade também. Então, antes de tratá-lo como saco de pancadas, pense a respeito de tudo isso.

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