qua. abr 1st, 2020

Vice (Idem, 2018) | Crítica

Um dos últimos concorrentes a despontar na temporada de premiações, “Vice” chegou forte no Oscar, com oito indicações, incluindo como melhor Filme e Diretor. Após se debruçar sobre a bolha imobiliária que levou os Estados Unidos a uma grave crise econômica em “A Grande Aposta” (2015), Adam McKay se volta para uma velha raposa da Casa Branca, cujos mandos e desmandos quando esteve no governo de George W. Bush repercute até hoje.

Como deixa claro no início, o Roteiro Original, assinado por McKay e nomeado ao prêmio da Academia, parte dos fatos para fazer uma interpretação dos mesmos. Exigir assim um maior aprofundamento ou verdade absoluta chega a ser leviano por parte de alguns. A intenção é mostrar quão absurda e inusitada é a história de Dick Cheney que de beberrão do interior sem perspectiva na vida se tornou o vice-presidente do país mais poderoso do mundo.

Uma grande qualidade de “Vice” é reconhecer sua limitação de fontes, recorrendo na maioria do tempo ao deboche para imaginar como aconteceram determinados eventos. Não há também nenhuma modéstia em pintar com cores fortes os retratados, o que deve ter deixado muitos republicanos de cabelo em pé. A presença de um narrador é acertada, pois permite que o público entenda melhor a história, além de oferecer um momento surpreendente.

Christian Bale e Amy Adams em cena de “Vice”. Foto: Divulgação

Apesar de todo o seu poderio e influência, Dick Cheney não era uma figura expansiva e midiática. Pelo contrário, como o próprio longa ressalta, era um líder furtivo. Como um sujeito calado e observador, Christian Bale oferece uma impecável atuação que merecia o Oscar de Ator. Mesmo distante, a sensação é de que está sempre articulando algo. A Maquiagem, provavelmente vencedora da categoria, é de extrema importância em sua composição.

Indicada como Atriz Coadjuvante, não será desta vez que Amy Adams levará a estatueta, mesmo seu trabalho sendo digno de ser premiado. No papel da esposa, sua Lynne é a personificação da expressão “por trás de um grande homem, há uma grande mulher”. Seu engajamento chega a espantar. Vencedor no ano passado por “Três Anúncios para Um Crime”, Sam Rockwell conseguiu mais uma nomeação de Ator Coadjuvante, agora interpretando Bush.

O ótimo elenco também conta com Steve Carell, como o ex-secretário de Defesa, Donald Rumsfeld; Tyler Perry, como ex-secretário de Estado, Colin Powell; Jesse Plemons; Alison Pill; e Shea Whigham. Mais do que o jogo de cena, a direção também é utilizada para criticar e refletir sobre algumas decisões. Soma-a isso, o uso despudorado de recursos estilísticos e a Edição espirituosa de Hank Corwin que não sem razão está na disputa pelo Oscar.

Sam Rockwell como George W. Bush e Christian Bale como Dick Cheney. Foto: Divulgação

Quem acompanhou o noticiário político internacional da primeira década dos anos 2000 irá identificar muitos momentos. Para que viu os documentários de Michael Moore, como “Fahrenheit 11 de Setembro” (2004), “Capitalismo: Uma História de Amor” (2009) e “O Invasor Americano” (2015), o filme parecerá uma dramatização dos mesmos. Pode ser que quem não tem familiaridade com tais eventos se sinta confuso diante de tantos nomes e informações.

Ainda assim, vale a pena o exercício intelectual. Há quem acuse o olhar de Adam McKay tendencioso e liberal, o que não invalida sua obra. Independente de partido, “Vice” é um reflexo da desmoralização da política atual em todo o globo. Numa época em que convivemos com ameaças à liberdade de expressão e fake news, o prestígio da produção acaba sendo também um recado satírico em alto e bom som da indústria do cinema aos grandes mandatários.

  • Duração: 132 min.
  • Direção: Adam McKay
  • Roteiro: Adam McKay
  • Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Sam Rockwell, Steve Carell, Tyler Perry, Jesse Plemons, Alison Pill, Eddie Marsan, LisaGay Hamilton, Shea Whigham, Bill Camp

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