Vingadores: Ultimato (2019) | Crítica

Atenção: O texto a seguir não contém spoilers. As informações sobre a trama estão de acordo com o que foi divulgado pelo próprio estúdio e diretores, enquanto que a análise do perfil de alguns personagens é pessoal e realizada diante da trajetória dos mesmos nos filmes.

Quando o gênio, bilionário, playboy e filantropo, Tony Stark (Robert Downey Jr.), aportou nos cinemas como “Homem de Ferro” no ano de 2008, acredito eu que nem o mais otimista dos fãs de histórias em quadrinhos poderia imaginar que se chegaria tão longe. Após 11 anos, 21 produções e uma bilheteria global de extraordinários US$ 18 bilhões, o Universo Cinematográfico Marvel (MCU, na sigla em inglês) conclui de forma majestosa o arco narrativo intitulado “A Saga do Infinito” em “Vingadores: Ultimato”. Fazia um tempo que não sentia tanta comoção em torno de um filme.

Compreendendo que já tem a audiência em suas mãos sem precisar recorrer a uma sequência de ação inicial de impacto, os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely adotam um ritmo mais lento e melancólico por um longo tempo. A Marvel sempre foi injustamente criticada por seguir uma fórmula. Desta vez ela surpreende ao subvertê-la, pelo menos no que condiz às expectativas. A trama segue um caminho natural e as situações são condizentes com o estado de espírito dos sobreviventes da dizimação de Thanos (Josh Brolin) vista em “Guerra Infinita” no ano passado.

Foto: Divulgação

Ainda impactados, os super-heróis precisam lidar com frustração, impotência, dor, revolta e desesperança. Ao focar na formação original da equipe, o roteiro consegue desenvolver a narrativa com maior eficiência e conectar todas as histórias do MCU de forma excepcional. Apesar dos diretores Joe e Anthony Russo dizerem em entrevistas que o derradeiro capítulo funciona até para quem nunca assistiu nada anteriormente, há de se ressaltar que a profundidade da trama e a compreensão maior dos próprios personagens estão diretamente conectadas aos seus filmes solo.

Após quase morrer no deserto nas mãos de terroristas, Tony vestiu sua armadura de Ferro a fim de usar seus recursos em prol da humanidade. Só não esperava ele que a maior ameaça viria do espaço. Defendendo a criação de um mecanismo de defesa envolta da Terra, ainda que algumas liberdades fossem suprimidas, enfrentou a oposição do Capitão América (Chris Evans). Mais conectado ao passado – que lhe foi usurpado quando teve que encarnar a figura de um verdadeiro herói da pátria – do que ao presente, a sisudez de Steve Rogers é mais do que compreensível.

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Filho de Odin, Thor (Chris Hemsworth) jamais pareceu se sentir à vontade como líder de seu povo, estando sua luta pelo trono de Asgard mais relacionada ao perigo de seu meio-irmão Loki (Tom Hiddleston) em assumi-lo. Criada como uma espiã russa implacável, Natasha Romanoff ou a Viúva Negra (Scarlett Johansson) descobriu o significado de família ao se unir aos Vingadores. Sem saber como lidar com seu lado mais feroz, Bruce Banner (Mark Ruffalo) sempre procurou o inibir. Sua luta interna contra o gigante Hulk apenas atrapalhou seu processo de aceitação e condição.

Obras que não foram bem avaliadas ou compreendidas na época de seus lançamentos justificam suas existências e oferecem momentos comoventes ao resgatar situações e personagens conhecidos. Devo destacar o Homem-Formiga (Paul Rudd). Tanto seu longa de origem de 2015 quanto sua continuação ao lado da Vespa (Evangeline Lilly) de 2018 foram mornos. O conceito lá exposto sobre o Reino Quântico, contudo, é essencial para entender os planos dos Vingadores contra o vilão e sua Manopla do Infinito. No todo também merece ser ressaltada a Nebulosa (Karen Gillan).

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A chegada dos irmãos Russo ao Universo Cinematográfico da Marvel pode ser visto como um divisor de águas para o estúdio. Foi pelas mãos deles que o Capitão América ganhou maior relevância em “O Soldado Invernal” (2014) e dividiu o mundo e os fãs em “Guerra Civil” (2016). Compreendendo a gênese de tudo o que estava sendo realizado, a dupla conseguiu criar algo único na história das adaptações das histórias em quadrinhos. Sem falar no bom marketing já que Anthony e Joe também participaram do processo de divulgação e conseguiram guardar as surpresas.

Com um dos melhores terceiros atos da história do cinema, “Vingadores: Ultimato” é um épico sem precedentes, se aproximando (ou igualando?!) de sagas como “Star Wars”, “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter”. Graças a um bom planejamento, ambição para apostar em novas histórias, visão diante das transformações do mundo, perseverança diante dos erros e paixão pelo material de origem e seu mestre Stan Lee, a Marvel chegou ao topo. Se a Academia for coerente, o blockbuster há de figurar entre os indicados ao Oscar 2020 de melhor Filme e outras categorias técnicas.

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O MCU foi estruturado em fases, com cada uma terminando em um filme protagonizado por todos os super-heróis até então apresentados na telona. Assim, “Os Vingadores – The Avengers” encerrou a primeira em 2012, “Era de Ultron” a segunda em 2015 e agora “Ultimato” a terceira. Os planos para a Fase 4 ainda não foram revelados, o que pode acontecer em algum evento de cultura pop no segundo semestre, como a tradicional San Diego Comic-Con ou a D23, do conglomerado Disney. A única certeza é que “Homem-Aranha: Longe de Casa” a inicia no dia 4 de julho.

Enquanto alguns figurões da indústria de Hollywood tentam diminuir os super-heróis, alegando que se trata de um gênero com curta data de validade, os fãs que lotam os cinemas provam que ainda há muita fé e interesse em suas histórias. Quando as luzes da sala onde estava se acenderam, parte do público parecia não querer ir embora. Eu era um deles totalmente tomado de emoção. Com muitas possibilidades pela frente e indo de encontro a um mundo mais diversificado, representativo e igual, a Marvel está pronta para uma nova década de sucesso e além. Excelsior!

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  • Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame)
  • Duração: 181 min.
  • Direção: Joe e Anthony Russo
  • Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely; Baseado nos quadrinhos da Marvel criados por Stan Lee e Jack Kirby; E nas HQ de Jim Starlin
  • Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Don Cheadle, Paul Rudd, Brie Larson, Karen Gillan, Danai Gurira, Bradley Cooper, Gwyneth Paltrow, Josh Brolin

Moisés Evan

Formado em Jornalismo, acredito na cartilha de "The Post", e também em Publicidade, mas sem a intenção de fazer "Três Anúncios para Um Crime". Como "Lady Bird", ao alçar voo para outras bandas, cheguei até aqui. Tem horas que o mundo parece nos envolver numa "Trama Fantasma" ou nos colocar numa enrascada como em "Dunkirk". Não vou mudar "O Destino de Uma Nação" escrevendo sobre o que mais amo, mas sempre que eu postar, espero que você "Corra!" para ler e não tenha receio de comentar e/ou discordar. "Me Chame Pelo Seu Nome"? Melhor não. Mas pode ser pôr @sr.lanterninha. Vivo num mundo de sonhos e monstros e um dia hei de descobrir "A Forma da Água" em seu estado mais bruto e belo.

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