Vingança a Sague Frio (2019) | Crítica

O que deveria ser um filme de um ator só se torna uma carnificina eufemizada aos moldes tarantinescos emulados e um ambiente comicamente disposto a contrariar a frieza com muito humor negro, como uma metralhadora que demora para acertar um alvo específico, sem que o atirador esteja preocupado o quanto vai demorar.

A história conta a vida de um Nels Coxman interpretado por Liam Neeson que recebe o prêmio de melhor cidadão do ano. Tal cena é gravada com tanta ironia, com uma câmera de baixo sem muito foco pelo flashs de luzes, de tal modo a evidenciar o contrariamento que havia de vir.

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Quando se estabelece o conflito do protagonista que degringola tudo, o diretor parece se deleitar na primeira oportunidade de tornar o homem ímpeto, pai de família e bom esposo em um tremendo assassino sem um pingo dó. Neeson não expressa nenhuma comoção, uma associação direta ao ambiente frio. E com um corte para um outro arco, o grande vilão se mostra em completo exagero diante de atitudes erráticas de seus subordinados para situações cotidianas que envolvam seu filho. O ator Tom Bateman(que atuou no “Assassinato no Expresso do Oriente”) não perde a chance de se expor uma comédia avacalhada de dicas nutricionais, ridícula mesmo, sendo o primeiro sinal de contato positivo ou negativo com o espectador que vai durar toda a narrativa.

O filme não para por aí, o roteiro quer aproveitar mais personagens, introduzir mais, focar em diálogos, com ações econômicas e finalizadas sempre com um pós-morte letrado ritualizado a cada um sem vida, uma contínua comédia dark com a morte alheia, ampla e apagada facilmente pela neve branca, apesar do sangue vermelho. Daí vão surgindo caçadores de recompensas, mais relações para formarem mais vinganças, outras perseguições e mais, mais mortes. O sentimento é tão frio quanto o contexto esbranquiçado da neve, captado por uma fotografia acachapante e uma montagem servil involuntariamente a grande incremento lento que se torna o longa.

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Soa engraçado como Liam Neeson vai desaparecendo da tela, quando uma gangue indígena entra em cena o comentário sobre a ironia do civilizado transgredido ficam nos assassinatos risonhos com um caminhão de neve, os enganos coincidentes e uma espécie de moralidade que justifique mais mortes vão se tornando o centro narrativo. Enquanto isso policiais são mais perdidos que cego em tiroteio, uma graça de acompanhar a dupla interpretada por Emmy Rossum e John Doman em uma aventura ocasional pela aleatoriedade em princípio. Não há limites, a trilha formada não parece ter muito objetivo até Liam Neeson reaparecer, explicando até sua ignorância dos variadas confusões que se fazem chegando perto do ato final.

É difícil imaginar o que se espera, parece tão sem fim a turba que se forma tornando a imprevisibilidade uma consequência do amansamento demasiado do público a crueldade vista em tela. O personagem central está bem longe da perseguição em foco, concluindo em uma grande ironia humorada. A morte é efemerizada em todos os sentidos, desde do drama inexistente de um pai a falta de alguma verossimilhança com as motivações criadas para tantos assassinatos.

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Na sua insensibilidade intencional vira um feitiço contra o feiticeiro, que a banalização deixa de ser um meio cômico para terminar antipático. A diversão pertence a essa tentativa de permanecer num extremo constante em sua história, sem apego a algum foco, tornado-se natural. Mas nem sempre o tempo é amigo da duração inercial.

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  • Título oficial: Cold Pursuit
  • Duração: 119 min.
  • Direção: Hans Petter Moland
  • Roteiro: Frank Badwin com base no roteiro do filme original sueco, escrito por Kim Fupz Aakeson.
  • Elenco: Liam Neeson, Laura Dern, Micheál Richardson, Michael Eklund, Bradley Stryker, Wesley MacInnes, Toim Bateman, Domenick Lombardozzi.


Davi Lima

Cinéfilo, fã de Star Wars, e ainda procurando formas de ver mais filmes para aprimorar a massa crítica. Colocando a sabedoria e o equilíbrio aonde for.

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