WandaVision (2021) | Crítica

É complicado exigir autorismo de uma empresa tão controladora como a Walt Disney, que torna seus projetos reféns de moldes industriais e pouco oferece a liberdade aos realizadores em explorarem as capacidades do que revelam em cena. Claro que, nem sempre foi dessa forma, mas a medida que o monopólio Disney foi se expandindo, o estúdio e a marca logo se transformaram em uma espécie de linha de produção mais interessada no retorno financeiro de suas produções e materiais licenciados ao invés de valorizar a expressão artística de cada projeto que ajuda a dar vida. Aos poucos, a casa de Mickey Mouse foi adquirindo outras propriedades em prol de seus valores comerciais, mas esquecendo do poder artístico que aquelas marcas tinham, sendo a pior delas a recente compra da 21st Century Fox, que causou um alvoroço coletivo, seja positivo ou negativo.

Mas onde quero chegar com isso? Simples: a medida que a Disney se constituiu como uma das maiores empresas do mercado, a arte que lá era feita se tornou mecânica, os realizadores pouco tinham a possibilidade de fazer o que desejavam, com algumas exceções a regra e, como disse, o estúdio havia se tornado uma linha de produção desenfreada. E, quando se reflete a respeito dos 13 anos de filmes do MCU, isso fica ainda mais claro. As ideias criativas de boa parte dessas obras eram meros rabiscos, esboços do que poderia ser e que eram interrompidos pelo desejo de executivos que pouco se preocupam se a arte tem impacto ou não, mas no dinheiro que aquilo irá gerar. Até por isso, muitos dos filmes 23 filmes eram submissos a serem trailers dos planos para o que viria a seguir no cronograma do estúdio ao invés de funcionar como peça isolada que naturalmente iria se conectar como aquele vasto universo compartilhado. Tirando raros exemplares (o discurso social de Pantera Negra, o humor screwball de Homem-Formiga e a Vespa ou a urgência dramática de Vingadores: Guerra Infinita), os demais projetos da Marvel parecem cálculos programado para atender uma demanda específica e atingir a todos os públicos de forma igualitária, porém artisticamente limitadora.

E nesse ponto que entra WandaVision, a mais recente investida da empresa.

A base dramática desse seriado é, por si somente, muito promissora ao abrir possibilidades de explorar os traumas e tormentas internas da Wanda (Elizabeth Olsen) pós-Ultimato onde, amargurada pela perda de seu amado, Visão (Paul Bettany), cria uma realidade idealizada que, a partir de um conceito criativo, atravessa as diferentes épocas das sitcoms americanas, desde sua época mais ingênua com piadas simples e antiquadas para o mundo contemporâneo até o humor ácido de mockumentary das produções feitas no século XXI. Em seu cerne, WandaVision carrega uma premissa de farsa muito interessante e que vai além de uma homenagem preguiçosa: Wanda cria esse mundo irrealista que explora as possibilidades do audiovisual para mostrar como a protagonista cria um refúgio onde vive de modo inocente, transitando entre os vários períodos da comédia americana na televisão e até do retrato familiar das épocas em que tais obras foram idealizadas (os anos 50 e o conceito patriarcal do homem que vai ao trabalho e da mulher que é dona de casa, por exemplo). Mas o que é interessante e que foi estabelecido bem nos três episódios iniciais da série é como esse mundo criativo de aparências é um refúgio para a personagem que recusa aceitar a verdade em prol de viver nesse mundo farsesco que omite os fato, oferecendo uma confortável mentira.

Contudo, essa é meramente a base dos três primeiros episódios e que se perde completamente no quarto episódio: ao invés de se aprofundar ainda mais nos transtornos internos de sua protagonista, o foco é desviado completamente e apresenta o núcleo que engloba a Monica Rambeau (Teyonah Parris), Jimmy Woo (Randall Park) e Darcy Lewis (Kat Dennings), que serve justamente para martelar na mente do público que, por mais autoral que a série fosse em seu início, ela ainda é um produto pertencente ao MCU. Não é um problema relembrar ao público que aquilo está integrado a um universo maior, mas desviar recorrentemente do arco dramático de sua protagonista apenas para relembrar e, em muita das vezes, mastigar o que está sendo mostrado em cena logo se compactua como um demérito por criar duas obras que pouco se comunicam, provocando assim uma inconsistência que perdura até o oitavo episódio, onde vemos o conflito de duas visões, a artística e a empresarial. Aos poucos a série entra cada vez mais no molde pronto das produções do estúdio e vai perdendo cada vez mais a veia autoral e rica de sua abordagem dramática ao se render a um planejamento industrial que visa o lucro e a produção em massa.

Se tudo isso já não fosse o suficiente, é no episódio 8 e 9 que o seriado abraça de vez, não sua proposta inicial, mas a pressa de um estúdio que almeja atender todos os públicos que for possível. E o que poderia ser uma resolução dramática realmente grandiosa e até um tanto quanto intimista se torna a velha e cansativa pirotecnia de cores e raios que boa parte das produções do subgênero se tornam reféns, apelando até ao raio azul, mas agora avermelhado. Perde-se o compasso dramático do arco de Wanda e a resolução emocional de tudo se torna insatisfatória por ser semelhante a qualquer dissolução genérica de um filme de supr-heróis. A diferença aqui é que acaba sendo dentro do formato de um seriado, o que faz de tudo ainda mais esticado e decepcionante.

O pior de WandaVision é ver que tinham ótimas ideias e um rico terreno para explorar as capacidades dramáticas que aquela experiência audiovisual carregava, mas ao invés de investir em algo mais autoral, de arriscar fichas, Kevin Feige, a Marvel Studios e/ou a Disney optou por tomar um trilho mais comercialmente seguro e nada criativo, onde tudo acaba sendo desinteressante, repetitivo e emocionalmente frágil. No final das contas, a série parece menos interessada no que ocorre dentro do mundo de Wanda, mas no exterior. E as inevitáveis cenas pós-créditos revelam isso, infelizmente.

Avaliação: 2 de 5.
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