outubro 27, 2020

Wasp Network – Rede de Espiões (2020) | Crítica

     Esse é um filme que já nasce e morre em sua essência aqui no Brasil, mais uma vez a ignorância política vai afastar o cinéfilo de mais uma produção, quem se der ao trabalho de pesquisar uma simples sinopse já vai torcer o nariz para algum lado; quem não tiver feito isso vai repetir o gesto ainda no primeiro ato, com uma aparente “propriedade” muita gente vai dizer que não foi assim, que não foi retratado com verdade. No entanto, vai ter aquele que apreciará o filme e é nesse público que o diretor Olivier Assayas mira…e acerta. Se ao longo da sua carreira Assayas oscilou entre altos e baixos, aqui ele tem uma oportunidade de manter o seu trabalho em um bom nível.

     Baseado no livro de Fernando Morais, o filme conta a história de um grupo de espiões cubanos que se infiltraram no território americano na década de noventa, o livro se chama “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”. Em uma rápida lida você percebe que o livro é muito mais incisivo e visceral do que o filme, mas também é fácil entender que o longa não quer falar sobre os países e seus regimes e decisões, o filme foca em pessoas, são espiões não espiões. Com o texto sob controle, o diretor também assina o roteiro, a trama se desenvolve de forma desconstruía quando se fala em estilo, se em filmes de espionagem você é uma espécie de narrador que possui consciência de tudo, aqui o espectador vai recebendo informações de forma dosada e esse é um dos acertos do filme, orientar o seu público junto com o enredo. Junto com isso vem as revelações de como era viver nos dois países e, principalmente, em Cuba. Ser mulher, Ser mulher que trabalha, Ser uma pessoa que deseja sair do país…do outro lado tem outros “Seres”, o que acha que seu país é o correto e soberano, o desejo de estar correto, de acreditar que realmente você é melhor que o outro. Apesar da iminente ligação política que o filme tem acerca do tema, a politica em si não surge como forma primordial para o desenvolvimento da narrativa, apenas passeia ao redor dando ao próprio espectador o benefício de escolher o tema como principal ou não, convenhamos…essa sutileza em alguns momentos tem a clara intenção de causar um desconforto em diferentes mentes, muita gente certamente vai cair nessa isca e interpretar da forma que quiser, o que é bom, mas o principal problema vai ser o “embate” do que é certo e melhor, mesmo que seja um embate solo.

     Tudo isso se consolida quando um elenco latino de peso é escalado, se a troca de Pedro Pascal por Wagner Moura soou de forma positiva, ao fechar o elenco principal com Penélope Cruz, Ana de Armas, Édgar Ramirez e Gael Garcia Bernal, Assayas deu o recado que a visão e protagonismo vinha do outro lado do oceano, obviamente não caiu bem na impressa americana, que mesmo sem assistir ao filme, já o carimbou de forma negativa; o fato é que isso não importava para o diretor. Todo elenco está bem dentro dos seus limites e destaques, mas quero fazer três menções: 1 – Édgar Ramirez. O ator precisa urgentemente decidir qual caminho vai seguir, pois é difícil olhar no mesmo catálogo da Netflix seu outro lançamento; aqui o ator estar muito bem e figura uma persona com todas características que a trama pede, principalmente nos elementos éticos e morais, enxergar os motivos do personagem é mais importante que os atos. 2 – Wagner Moura. Seu personagem é peça chave para que a ideia do movimento permaneça viva, tanto no filme quanto para quem está assistindo. O que é preciso fazer, o que é preciso abrir mão; com a convicção de quem parece querer ter participado, o ator convence mais uma vez e de todo elenco, é o que parece menos latino. 3 – Penélope Cruz. A atriz que é muito familiar a esse tipo de papel, aqui avança mais uma camada quando precisa transmitir todos os sentimentos e sensações, boas ou ruins, de uma mulher cubana. Todos estão alinhados com a proposta da trama e sem aparentemente intervenção do diretor, avançam com atuações lineares e sólidas.

     Se por um lado o filme acerta nas escolhas narrativas e aspectos técnicos, como a sofrida havana, que passeia entre a beleza turística e as ruas e vielas sem o mínimo de cuidado, traduzindo bem a realidade do país aos nossos olhos, alguns elementos não funcionam como deveriam. Todos acontecimentos envolvem diferentes emoções e é exatamente isso que falta, emoção! O filme tenta e não consegue ser proporcional ao que sugere. Outro ponto que não tem a eficácia necessária é a virada do plot, positivamente o diretor troca o personagem por um narrador para explicar tudo que está acontecendo, mas a execução pode confundir o espectador, pois o sumiço repentino de um dos personagens causa uma certa confusão, mesmo que a ideia permaneça. Com o uso de imagens reais, o tom do famigerado “baseado em fatos reais” sobe de nível, mas pedia mais política.

     Wasp Network: Rede de Espiões, é um filme que se faz necessário nos tempos atuais, mas corre um grande risco em ser discutido da forma errada, a obra não propõe o debate de certo e errado quando se fala nos países, o dialogo propõe falar sobre pessoas, sobre decisões, escolhas, consequências e não se tal sistema não presta e tal presta, pois cada vez mais vem se provando que, em sua maioria, não é o sistema que não presta, são as pessoas que detém o poder que distorcem visões e entendimentos, num pensado e árduo jogo de manipulação.

Avaliação: 3.5 de 5.
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