outubro 28, 2020

X-Men 2 (2003) | Crítica

Bobby, você já tentou não ser… um mutante?

A frase acima representa um de diversos momentos fabulosos e socialmente importantes presentes em “X-Men 2“, que, com uma simples frase, explicita claramente a raiz do preconceito sutil, mas tão destrutivo quanto. Depois do sucesso de público e crítica que foi o primeiro, Singer recebeu um orçamento ainda maior e uma certa liberdade da Fox para dar segmento as aventuras dos filhos do átomo, realizando isso com um virtuosismo estilístico surpreendente e uma construção temática admirável e corajosa, imergindo na ideia do preconceito e segregação e transformando a continuação em mais do que um mero “filme de super-heróis”, mas sim um drama doloroso, envolvente e jocoso protagonizado por seres com habilidades extraordinárias, algo que instiga uma mistura de admiração e medo nas pessoas que rodeiam os personagens. 

Abrindo a projeção com vigor, Singer traz um segmento impressionante onde acompanhamos Noturno (Alan Cummings) invadindo a casa branca: a idealização do combate demonstra uma atenção do realizador, desde os movimentos executados pelo personagem, como o uso de suas habilidades e a disposição de figuras em cena, criando uma geografia interna compreensível e misturando traços de suspense para prender o público no acontecimento, tendo como resultado um dos instantes mais memoráveis do subgênero de super-heróis. Singer deixa claro a evolução estética entre o primeiro filme e sua continuação: os efeitos soam mais convincentes, a idealização dos combates tem um charme maior e exploram com mais eficiência os poderes dos respectivos mutantes, reservando uma sequência memorável a boa parte das figuras em cena: Magneto e sua magistral fuga da prisão, Wolverine e o confronto dentro da mansão X e o clímax, mesclando apreensão e ação com um controle adequado. 

Mas, é na profundidade entregue a cada personagem em cena e a complexidade temática na qual carrega que Singer demonstra uma adaptação mais fidedigna ao espírito das histórias dos mutantes nos quadrinhos: A discussão social aqui é levada a outro patamar, adentrando em campos da política e militarismo, como ambos consomem a mente de seus homens e os transformam em vítimas de seu próprio medo. O coronel William Stryker é um exemplo perfeito de antagonista para esse capítulo, já que foi levemente modificado em sua transcrição ao cinema, adotando apenas o passado militar da figura e excluindo o elemento religioso de sua personalidade. Mesmo com tal alteração, isso não reduz a ameaça de Stryker, que impõe temor mesmo sendo um mero humano. Porém, não é necessariamente o que ele é, mas o que representa simbolicamente na obra é o que faz dele perigoso, já que demonstra ser um sujeito consumido pelo preconceito, incapaz de olhar os “filhos do átomo” com outros olhos. O impacto do subtexto de “X-Men 2” é constantemente ressaltado por excelentes diálogos entre seus personagens, entre essas interações destaco um breve momento onde vemos Noturno questionando o motivo de mística não utilizar sua habilidade para se camuflar na sociedade, algo que a mutante responde com um simples e forte “porque não deveríamos“. 

Outro acerto do roteiro está na composição dramática de seus personagens: Hugh Jackman injeta uma breve humanidade a jornada de Logan e aos martírios do experimento Arma X, mostrando que, por mais impulsivo que seja o sujeito, ele não deixa de ser uma vítima do mal que o cerca, criando um embate interessante com a figura de Stryker e seu envolvimento direto com o passado do mesmo. Outro destaque é o Noturno de Alan Cummings, que demonstra uma aparência física completamente oposta ao que representa, chegando a ser religioso e a rezar em situações nervosas. E, enquanto Ian McKellen como Magneto substitui a imponência de Patrick Stewart com excelência, Brian Cox cria em Stryker um antagonista com objetivos claros e adequadamente sem um plano megalomaníaco, condizente com a trama menos colossal proposta pelo texto. Já em uma escala de presença reduzida, os destaques são a Halle Berry como Tempestade, Rebecca Romijn como Mística e Shawn Ashmore como Homem de Gelo, ambos trazendo carisma e peso emocional as suas figuras.

Esteticamente superior ao antecessor em todos os aspectos, “X-Men 2” é um dos melhores exemplares de que o cinema de super-heróis pode ir além do escapismo heroico tradicional e entrega uma obra dramaticamente virtuosa e socialmente poderosa, fazendo o espectador se encantar mais pelo valor temático e reflexivo do que pelas suas cenas de combate entre super-seres. 

Avaliação: 5 de 5.
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