outubro 22, 2020

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014) | Crítica

Se a franquia dos X-Men sob a tutela da Fox tivesse seu encerramento em Dias de um Futuro Esquecido, seria extremamente adequado, pois o tom narrativo da obra segue um molde de despedida, resgatando tanto os atores dos capítulos comandados por Bryan Singer e Brett Ratner quanto aqueles que apareceram em Primeira Classe para encerrar os laços com todos os ocorridos da trilogia original.

Com isso, Singer e Simon Kinberg orquestram uma eficiente produção de viagem no tempo para criar uma ligação inteligente e ambiciosa do passado com o futuro dos mutantes e, principalmente, do grupo em vários níveis, seja o temático até o dramático, mesmo que carregue consigo uma desorganização temporal, algo que permeia a história dos super-heróis nos quadrinhos, mas que não precisava de uma adaptação cinematográfica.

As constantes idas e vindas de passado e futuro são tratadas de uma maneira ágil através da montagem, que se mostra eficiente e capaz de intercalar os acontecimentos – em muitas vezes, simultâneos – , mas isso não impede da obra conceber furos entre a união dos capítulos clássicos com a versão “jovem” das figuras que acompanhamos em X-MenX-2 e O Confronto Final.

Um desses deslizes é, especialmente, as mudanças físicas de personagens como Magneto e Xavier: mesmo que seja um defeito que soe pior nos dois projetos posteriores, não deixa de irritar que, após uma década, a única coisa diferente é o crescimento capilar de Xavier (de fato, esse é o único). Sem comentar que, todas as vezes na qual se empenha em linkar as linhas temporais, o roteiro derrama uma série de furos lógicos nas relações dos mutantes na franquia – um exemplo é a falta de importância de Raven para Xavier e McCoy em X-Men 2 e 3

Porém, o elemento “viagem no tempo” não traz apenas deméritos, mas enche a obra de virtudes: além de empregar uma intercalação interessante e pouco cansativa entre passado e futuro, esse conceito permite que Singer homenageie os dois capítulos clássicos na qual dirigiu, mas nunca concebe isso de forma declarada (Vingadores: Ultimato), e sim com uma sutileza que é admirável. O tom de Futuro Esquecido é o mais fúnebre e dramático, algo válido para traçar o impacto dos ocorridos e ressaltar o peso do arco de seus personagens.

Por falar deles, há muitos mutantes em cena e nem todos são abordados com igualdade de tempo em tela, algo compreensível, já que seria impossível dar destaque a cada um que estivesse presente. A figura que chega mais perto de um “protagonismo” seria a Mística de Jennifer Lawrence, que possui um conflito interessante sobre qual caminho deve trilhar e a sua noção de certo e errado, visto que seus aprendizados com Xavier e Erik são opostos; e Lawrence entrega uma performance respeitosa ao compor as lacunas emocionais dos dramas de Raven, além de imprimir dúvida e impulsividade na persona que possui, provando sua capacidade de carregar o protagonismo de uma franquia como essa. 

Já Hugh Jackman como Wolverine seria o co-protagonista e, mais uma vez, o intérprete demonstra que nasceu para interpretar essa figura: dos trejeitos agressivos e nervosos que caracterizam o personagem até sua veia cômica e sarcástica, Jackman entrega mais um exemplar do seu talento ao personificar um dos mutantes mais famosos do grupo. Outro destaque são as performances de James McAvoy e Michael Fassbender como Professor Xavier e Magneto: isoladamente, cada um tem um arco dramático convincente e bem trabalhado pelo roteiro, mas é quando dividem a cena que as interpretações ganham mais força dado a excepcional dinâmica dos atores, das diferenças entre as variadas formas de combater o preconceito contra os mutantes até a concordância com certas ações, são embates muito fortes que enriquecem aquelas figuras.

No entanto, quem rouba a cena de grandes nomes da produção é o jovem Evan Peters como o Quicksilver, e muito se deve a sequência onde acompanhamos através de seu ponto de vista quando utiliza sua habilidade, gerando um segmento inventivo e esteticamente charmoso onde todos os detalhes funcionam com exatidão. O elenco de apoio composto por Ian McKellen, Patrick Stewart, Nicholas Hoult, Halle Berry, Ellen Page, Shawn Ashmore, Josh Helman e Peter Dinklage é eficiente em sua presença em cena. 

Contudo, é na riqueza temática que Dias de um Futuro Esquecido encontra seus méritos: iniciando de forma desesperadora ao mostrar os mutantes em espécies de “campos de concentração” e pilhas de ossos despejados, Singer logo explicita que agora não é mais sobre a luta continua contra o preconceito; a batalha é imediata e as decisões são ainda mais diretas. O subtexto aqui é claro, muito pelo fato do antagonista ter mudado, deixando de ser os humanos que agiam na base do medo, não da racionalidade para robôs cuja a programação é única e clara: exterminar todos aqueles que tem o gene mutante em seu sangue. A analogia acerca da segregação ganha contornos mais explícitos, algo que não diminui seu impacto, já que as sutilezas estão presentes no passado onde acompanhamos membros importantes do governo demonstrando o medo dos “filhos do átomo” e como ele é a desculpa para seus atos repudiáveis do futuro. 

Encerrando com uma bela despedida dos velhos personagens e abraçando os novos que conquistou, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é um encerramento de um ciclo e a abertura para novos caminhos que, poderiam cada vez serem mais audaciosos e promissores, mas que só resultaram em dois projetos condenados por público e crítica (embora admire um deles). No entanto, não deixa de ter seu impacto e sua força reflexiva que fez dos mutantes o grupo mais interessante de super-heróis dos cinemas. 

Avaliação: 5 de 5.
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