junho 3, 2020

X-Men: Primeira Classe (2011) | Crítica

Após o desastre de produções falhas como “X-Men: O Confronto Final” e “X-Men Origins: Wolverine“, a franquia parecia ter perdido suas principais virtudes, se tornando uma paródia de si própria, o que resultou na ideia de recomeçar a saga dos seus primórdios: ao invés de trazer figuras clássicas e reincidentes das aventuras dos filhos do átomo nas HQs, os produtores foram contra o óbvio e resolveram levar o “mais novo” capítulo da série para os anos 60, contextualizando as origens dos pilares essenciais dos três filmes anteriores, Magneto e Charles Xavier. Numa jogada que poderia soar como mais um fracasso – e possivelmente, o enterro dos mutantes no cinema por um longo período – foi um acerto digno de aplausos, não somente por trazer charme e jocosidade ao universo, mas por equilibrar com os toques dramáticos, intimistas e socialmente relevantes que fizeram o trabalho de Singer nos dois primeiros projetos um enorme sucesso e importantes para a consagração dos super-heróis no cinema atual. 
 
Iniciando de forma promissora, “Primeira Classe” abre com a origem de Erik Lehnsherr  nos campos de concentração – uma clara homenagem ao início de “X-Men: O Filme” – mostrando a raiz de seus traumas e criando um paralelo lógico com a segregação humana com aqueles que pouco se assemelham aos tipos característicos da sociedade. Em contraponto a esse momento, acompanhamos o primeiro encontro entre Xavier e Raven (posteriormente, a Mística) e o estabelecimento de seus laços afetivos muito antes da idealização do grupo de mutantes. Logo após, avançamos no tempo e nos reencontramos com as duas figuras centrais da obra consumidos pelos sentimentos que cultivaram durante anos: Xavier como um sujeito bem sucedido e de lábia atraente e Lehnsherr mergulhado em um senso vertiginoso de vingança que o torna em um homem fechado e impulsivo, agindo em prol do ódio após seu encontro com Sebastian Shaw (Kevin Bacon), antagonista da narrativa. 
 
Personificados por James McAvoy e Michael Fassbender, os atores tinham a difícil missão de se igualar aos trabalhos deslumbrantes de Xavier e Magneto feitos por Patrick Stewart e Ian McKellen, se tornando quase superiores ao que os veteranos realizaram em 2000: McAvoy compõe um sujeito de boa índole e que procura ver as coisas pelo lado racional, nunca recorrendo ao extremismo de certas ações e sonhando com um mundo onde os mutantes possam ser reconhecidos e até respeitados na sociedade, representando um lado menos impulsivo se comparado com Michael Fassbender, que encarna Erik como um sujeito marcado pelas dores e conflitos que viveu, consumido pelo veneno da vingança e entregue ao ódio e emoções mais intensas que fazem com que sua generalização com respeito ao lado nefasto da humanidade se torne perigosa. Mas o brilhantismo é quando ambos se encontram em cena: além de uma dinâmica fluída e dramaticamente bem estruturada, é possível realizar uma analogia clara com os embate histórico de Martin Luther King Jr. e Malcolm X, que lutavam por uma causa semelhante, mas através de atitudes opostas. 
 
Fassbender e McAvoy cativam no campo dos protagonistas, mas não roubam o espaço para que outros personagens tenham arcos interessantes e bem-trabalhados: a Mística, interpretada por Jennifer Lawrence, é a que mais recebe um destaque secundário por conta de sua habilidade e a forma na qual a mesma atua em sociedade, colocando um rosto falso para que os demais ao seu redor não se assombrem com quem realmente é, desgastando a figura, já que a mesma é incapaz de saber como lidar com um poder tão amplo, mas que tampouco faz com que a mesma possua um rosto verdadeiro além daquele que deseja esconder, percebendo aos poucos que não existe necessidade em omitir quem realmente é. Outro que possui um arco semelhante é o Dr. Hank McCoy de Nicholas Hoult, já que seu incômodo com a forma física que possui faz com que o próprio procure uma forma de repreender seu verdadeiro “eu”, fazendo a sua mutação evoluir e transformá-lo na criatura  azul que já temos conhecimento. E além desses, há uma galeria de personagens secundários que enriquecem a narrativa: Banshee de Landry Jones e Alex Summers de Lucas Till entregam personalidades divertidas, imprimindo um humor fluído e bem inserido; e se Kevin Bacon se diverte ao criar um nêmesis que se guia mais pelo charme do que pelas habilidades em combate, January Jones rouba seus momentos ao trazer as características mais clássicas de Emma Frost, sendo triste que a intérprete jamais voltou a reprisar seu papel. 
 
Porém, o destaque de “Primeira Classe” é como ele consegue conciliar o divertimento de uma obra do subgênero de heróis com uma relevância social poderosa: ao mesmo tempo que entrega segmentos de ação pontuais e bem idealizados, como aquele em que vemos os personagens combatendo um ataque repentino de Shaw a base de pesquisas onde se encontram os personagens ou mesmo o clímax eletrizante do ato-final, o roteiro trata de não ignorar que esse é um filme muito mais focado em suas figuras e nos subtextos que traz do que em momentos catárticos envolvendo os mutantes. A profundidade temática desse capítulo é articulada de uma maneira diferenciada do costumeiro na franquia: ao invés de ir diretamente para a crítica ao preconceito e segregação, Vaughn e outros roteiristas elaboram uma saída interessante do básico ao focar nas reações humanas se deparando com as habilidades de mutantes, em uma mistura de fascínio e medo do que os mais “evoluídos” podem representar. A composição do set-piece final e a ideia de inserir a obra durante os eventos dos mísseis de Cuba prova um cuidado interessante por colocar os filhos do átomo como um destaque que logo se torna uma ameaça para os barcos, tanto os americanos quanto os russos. Como a obra está retornando para um período onde os mutantes não são de conhecimento global, nada mais adequado do que mostrar o início do principal desafio dos X-Men – e um breve destaque para a idealização das conversas, que refletem os temas abordados na trama.
 
Sabendo como balancear drama, aventura, ficção cientifica e fantasia sem que se torne desorganizado ou indeciso, “X-Men: Primeira Classe” é um resgate ideal a franquia, trazendo todos os elementos que fizeram dos primeiros capítulos da saga lançados em 2000 e 2003 se tornarem influências fortes na propagação do subgênero. E, além disso, ainda traz uma personalidade, uma estilização própria e um texto tão profundo e reflexivo do que aquele que é o melhor exemplar da equipe de mutantes no cinema, “X-Men 2“. Com todos os acertos, “First Class” se posiciona como um dos mais virtuosos trabalhos do cinema de super-heróis dos últimos anos. 
 
Uma volta ao preciosismo temático dos mutantes no cinema.
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