outubro 25, 2020

A Babá: Rainha da Morte (2020) | Crítica

Enquanto o primeiro A Babá, dirigido por McG, era um filme razoavelmente contido em seu absurdo, mas ainda muito refrescante na exploração dessa veia de slasher oitentista e misturando ela a um humor absurdo que fazia da obra uma diversão eficaz, mesmo que problemática, é em A Babá: Rainha da Morte que o diretor ultrapassa qualquer limite que poderia ter estabelecido e nos oferece uma narrativa tão insana e caótica em seu caminhar narrativo que é admirável, tanto pelo tom descontrolado e histrionico, quanto pela forma como o diretor coordena e explora o máximo de seus artifícios para criar uma experiência prazerosa em meio a tanta insanidade.

Se o ato inicial do primeiro filme era prejudicado, em partes, por uma progressão narrativa ritmicamente pouco atrativa, uma vez que esse universo e seus personagens já nos foram apresentados, o realizador se vê livre para abraçar o insano ao, primeiramente, estabelecer um tom humorístico que caminha em um compasso de “montanha-russa” ao intercalar gags que, simultaneamente, criam uma urgência cômica adequada que revela as intenções do realizador nesse projeto. McG não se interessa em pausar as coisas para o espectador respirar. E isso segue o filme inteiro ao mesclar acontecimentos e situações variadas ao mesmo tempo em uma dinâmica enlouquecida na qual o diretor sabe assumir bem e usa em prol do divertimento.

Ele potencializa tudo a potência máxima: as mortes escatológicas e exageradas do primeiro filme são ainda mais absurdas, impulsivas e graficamente explícitas; os personagens que já lidavam com uma linha histriônica muito clara, aqui ganham uma liberdade ainda maior para fazer do “overacting” a base de suas interpretações. Então, nesse sentido, Judah Lewis continua sendo um protagonista fascinante ao compor com McG essa persona introspectiva e de reações sempre artificialmente jocosas que permeia a sua composição do jovem Cole. Já os quatro integrantes do culto satânico que estavam presentes no filme anterior exploram ainda melhor os arquétipos que representam: Bella Thorne e sua admiração exacerbada ao próprio físico sensual, Robbie Amell que encarna os arquétipos da masculinidade frágil, Hana Mae Lee e sua personalidade creepy e Andrew Bachelor e sua compreensão dos problemas de representatividade racial no cinema de terror, tanto em seu tom vocálico extremo quanto em um segmento onde ressalta essa ideia através de uma citação ao cinema de Jordan Peele.

Por citá-las, se o filme de 2017 sofria ao intercalar diversas referências de modo pouco funcional ou seu propósitos narrativos convincentes, aqui nesse filme, McG faz com que até as que continuam soando puramente aleatórias terem um sentido interno claro ao se misturarem nessa abordagem caótica que ele dá a tudo, com menções a trechos específicos de clipes, Alice no País das Maravilhas, Matrix, Hannibal Lecter, os filmes de Jordan Peele e por aí vai, todas bem adequadas dentro desse tom mais eletrizante que faz com que as risadas sejam continuas. Tudo se mistura em um tom incontrolável (e, por consequência, engajante): os fundamentos dramáticos dos personagens, as gags, a violência absurda e graficamente frontal, as bizarrices, as referências, as inserções visuais, os personagens – dessa vez, o grupo ganha mais três integrantes, um deles garante a maior surpresa do filme – , a progressão dos eventos, é como se o filme estivesse sempre a beira de um surto, sempre pronto para explodir.

E, quando o faz, no terceiro ato, é gratificante de assistir: além de trazer um dos melhores elementos do filme anterior – que preservarei a revelação, para aqueles que não viram ao trailer – , McG faz com que tudo culmine bem para esse desfecho bem orquestrado dentro da lógica absurda e exagerada da violência, fechando tudo de modo agradável com um final que se mantém coerente ao tom estabelecido e encerra do modo mais adequado dentro da lógica interna desse mundo na qual o diretor nos convidou para uma segunda viagem, ainda mais insana, ainda mais exagerada e ainda mais funcional como um todo.

A Babá: Rainha da Morte é McG ampliando tudo que funcionou no filme anterior até onde não era mais possível, resultando em uma bomba (não relacionada a qualidade) energética que, quando explode, entrega aquela que, provavelmente, é uma das experiências mais jocosas de 2020, onde tudo está em sintonia para levar o público em uma jornada cheia de humor, referências e bons litros de sangue ao mesmo tempo e, em muitos momentos da projeção, na mesma cena.

Avaliação: 4 de 5.
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