setembro 28, 2020

A Cor que Caiu do Espaço (2019) | Crítica

No clássico Suspiria, de 1977, o diretor italiano Dario Argento optou por uma abordagem pouco convencional ao criar a sensação de medo em seu espectador, jogando contra a ideia de uma manifestação física do terror e escolhendo uma forma curiosa e eficiente de despertar a sensação de agonia constante: as cores. O banho estético que seu projeto oferece aos olhos do público não é por acaso, mas sim um artificio para evocar o sentimento de algo atípico ocorrendo dentro daquele ambiente. Em resumo, Argento soube empregar o espaço e a essência lisérgica dos elementos expressivos de sua obra para incitar o pavor que, consequentemente, o seu público sentiria. Contudo, esse discurso todo que realizei é apenas para reforçar as oportunidades da linguagem que A Cor que Caiu do Espaço teve em mãos, mas desperdiçou em serviço a uma atmosfera frágil e que jamais explora o aspecto psicodélico de sua narrativa.

Na verdade, o que Richard Stanley, diretor do filme, escolhe aqui é uma abordagem muito mais voltada a uma pose pseudo-profunda que encena boa parte dos eventos com uma aura misteriosa e pouco convincente, já que segredo ou mistério algum é trabalhado durante a narrativa, fazendo com que se revele uma certa autoindulgência por parte do realizador em forçar o trabalho a ser mais complexo do que ele realmente é. Ele aposta em uma complexidade que nunca atinge o ponto que deveria, seja no tratamento da dinâmica familiar (falo mais sobre isso abaixo), seja na antecipação da descoberta dos efeitos do meteoro que caiu do espaço e agora começa a afetar a vida da família. Então, de certo modo, Color Out of Space é semelhante a outra obra que segue os passos do legado de H.P. Lovercraft e seu terror cósmico: The Void.

Ambas premissas lidam com uma ameaça indescritível e que jamais conseguem explorar a dimensão da insanidade de seus personagens perante a algo que não conseguem descrever. Nesse aspecto, Stanley até coloca um certo grau de loucura a medida que sua narrativa avança, mas ele jamais consegue alcançar esse artifício dramático de modo completo. E, mesmo que vejamos uma ou outra manifestação intensa desse sentimento na figura de Nicolas Cage – destaque para a sequência no carro – , isso também jamais é levado a outro nível. Todavia, o que é realmente frustante em A Cor que Caiu do Espaço é como o diretor jamais consegue explorar o potencial gráfico e a essência psicodélica de seu universo, já que é preso a um trabalho limitado na maneira como decupa os eventos da narrativa.

Falta uma sobriedade maior a maneira como o realizador registra as catarses e eventos inexplicáveis de seu universo, pois tudo possui uma construção que nunca parece disposto a mostrar as possibilidades psicodélicas de sua narrativa e, quando decide exibir, o projeto se encaminha para seus minutos finais, na qual Richard Stanley usa do lisérgico como um clímax que, soa até funcional pois entrega aquilo que deveria usar durante o restante da projeção. E então volto a Argento e Suspiria que usou das cores com sobriedade para criar um constante sentimento de prisão e paranoia, se apropriando de tons fortes para desesperar suas personagens e incitar uma espécie de pesadelo através dos espaços banhados por tons de vermelho e azul, em especial.

Stanley também sofre na forma como fundamenta os aspectos dramáticos e a conexão emocional com seus personagens, que parecem saídos de uma sitcom americana devido ao modo como seu comportam e se comunicam e pelos esteriótipos que evitam uma construção maior do que as características básicas que lhe foram designadas – a filha rebelde, o caçula estranho, a dinâmica familiar distante, etc. Até o modo como é filmado as conversas entre os membros da família soa deslocado de qualquer contato com algo dramaticamente comunicável, já que evidenciam os arquétipos que representam. Nisso, Madeleine Arthur se esforça para fazer de Lavinia uma figura relativamente interessante pela ligação que possui com seu interesse por bruxaria, mas acaba se rendendo ao clichê que representa. E, tirando os overactings de Nicolas Cage (disparado, o mais comprometido com o papel), nenhum ator consegue compor características interessantes ou sugerir uma loucura crescente a medida que os eventos avançam, falhando em estabelecer qualquer tipo de vínculo com a família Gardner.

Olhando a obra como um todo, A Cor que Caiu do Espaço jamais transmite a bizarrice de seu horror cósmico e, excetuando seu desfecho climático, nunca consegue explorar os limites da experiência sensorial que possui em suas mãos, além de ser incapaz de criar uma importância por parte do espectador com os personagens que acompanhamos em cena. Uma obra que, ao invés de mergulhar no gráfico, se oculta em uma pose que almeja mistérios e enigmas profundos sem a necessidade deles sequer existirem. Uma decepção, no final das contas, especialmente pelo potencial que carrega,

Avaliação: 2 de 5.
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