maio 28, 2020

A Origem (2010) | Crítica

A palavra-chave que define o preciosismo e a genialidade vista em A Origem são os detalhes: Christopher Nolan concebe e articula com perfeição uma vasta riqueza de conceitos e regras complexas ao seu universo, dedicando uma boa parte de sua narrativa com o intuito de explicar cada uma delas com atenção para que se tornem compreensíveis. Nesse aspecto, é o único filme do diretor/roteirista cujo o uso do didatismo não se torna cansativo ou falho, mas necessário. O espectador precisa de tais informações das mais variadas maneiras, seja através da composição visual até as interações presentes no roteiro. Em essência, é uma ficção conceituai que, tendo bem fundamentado suas ideias, entrega um excelente passeio pelas complexidades da mente humana. Poucos filmes propõem uma experiência semelhante a essa.

Como dito antes, a virtude é o olhar atencioso e detalhista na maneira como Nolan e sua produção concebem cada um dos elementos visuais e das explicações verborrágicas para que venhamos a compreender o universo na qual elaborou. Muitos condenam o realizador por uma espécie de “autoindulgência” na contextualização das suas premissas, como se fosse o diretor/roteirista se parabenizando por sua criação. Contudo, me vejo forçado a discordar: acredito mais que, como artista, Nolan enxerga que certas coisas podem soar incompreensíveis ao público “casual” e vê a saída no didatismo para que isso se torne claro. E, mesmo compreendendo tal artifício, esse recurso é incômodo e afeta diretamente alguns trabalhos de sua filmografia (vide os finais de O Grande Truque e Interestelar). Contudo, aqui em Inception é, como havia afirmado anteriormente, necessário.

Aliás, é tão necessário que, mesmo tendo as explicações, se sua atenção for levemente desviada em seu primeiro contato com a obra, é possível que o espectador se perca na quantidade de conceitos complexos e repletos de camadas, tal como as voltas narrativas que tornam a experiência cerebral ainda mais desafiadora. Constantemente, o realizador permeia os níveis do sonhos com uma intercalação que torna uma tarefa complexa compreender as dimensões daquele universo. Nolan fundamenta bem alguns preceitos primordiais através de sua introdução, onde vemos dois segmentos aparentemente paralelos até a confirmação de que estamos acompanhando o artifício dos sonhos em atividade, já que vemos o protagonista Cobb (Leonardo DiCaprio) e seu colega, Arthur (Joseph Gordon-Levitt) dentro da mente de Saito (Ken Watanabe), um empresário na qual os personagens irão extrair informações de sua mente. A partir desse ponto, somos jogados em uma crescente grandiosa que, construída com inteligência através de uma primeira metade envolvente, o espectador é arremessado de fato na missão que evidencia o subgênero de “heist movie”.

A primeira hora de projeção é totalmente intencionada para que os conceitos básicos de seu universo sejam bem fundamentados e alicerçados. Um dos principais é a complexidade de níveis dentro do mundo dos sonhos: ainda na sequência de abertura, após os personagens saírem do espaço onde se encontraram, acompanhamos o decorrer de uma conversa entre Cobb e Saito até o instante que o protagonista arremessa Saito em um carpete que pouco condiz com a decoração que utilizaria – aquele quarto deveria simular algum ambiente pertencente ao empresário – , evidenciando que aquele é mais uma das camadas que oferecem um falso realismo, ocultando a natureza sonhadora do ambiente. Esse aspecto é essencial por estabelecer as dimensões diferenciadas dentro de uma missão como aquela e fundamenta esse recurso que será evoluído e empregado na segunda metade da projeção.

Outro aspecto inserido nesse segmento é o controle dos sonhos: no primeiro nível apresentado, suspeitamos de que o “sonhador” seja o empresário Saito – algo lógico – contudo, ao chegarmos em um momento específico, descobrimos que aquele era o sonho de Arthur, criando uma ilusão na mente de Saito, mas mantendo aspectos de decoração visual que condizem com a maneira na qual o personagem concebe aquele espaço em seu cérebro (os tons bege que conferem uma elegância pertencente a sua persona se fazem presentes em outros momentos da narrativa). Ao ser “apagado” de seu próprio universo, os sonhadores presos ali vêem o espaço ao redor se deteriorar aos poucos, se desfazendo em pedaços enquanto Cobb vê a necessidade de prosseguir a missão da qual foi designado, até o momento de ser ejetado do sonho através de um artifício chamado de “chute”.

Esse elemento é o que possibilita os sonhadores de serem extraídos dos sonhos, podendo ocorrer de diversas formas, seja através de um empurrão em uma banheira ou um tiro diretamente na cabeça. Claro que, como afirma Mal (Marion Cotillard), a dor dentro do sonho se mantém presente, algo que confirma a Cobb quando atira na perna de Arthur. Outro aspecto interessante é a maneira como Nolan articula os eventos exteriores ao sonho e como eles afetam aquele universo. Por exemplo, quando vemos o primeiro nível do sonho durante a segunda metade da projeção, vemos a estrutura do ambiente durante uma chuva que evidencia o fato do químico Yusuf (Dileep Hao), a mente do sonho na qual estão os personagens, não ter ido ao banheiro a tempo. Em outro instante, vemos o segundo nível perder a gravidade devido a uma capotagem de Yusuf no nível primário, o que resulta em uma sequência de ação complexa e admirável pelo emprego de técnicas práticas na construção das cenas.

A física de um sonho é completamente inexistente, já que, tal espaço é perfeitamente maleável e complexo, algo exemplificado no excepcional instante que Ariadne (Ellen Page), a nova arquiteta, está sendo apresentada a tais conceitos, desde brincar com as maneiras de modelar a realidade (virar uma cidade de ponta cabeça, criar ambientes através de adereços como os espelhos) até compreender como funcionam as regras básicas daquele ambiente. Com isso, somos apresentados a ideia básica do subconsciente: a partir de um certo ponto que o sonhador vai quebrando e recriando aquele espaço, as projeções do subconsciente começam a procurar quem está desfazendo aquilo que estava fundamentado. E ao encontrar, começam a tentar eliminar tal “invasor” – conceito esse que é bem apresentado na sequência de abertura da obra. Uma prova de como todos os aspectos foram bem idealizados.

Nesse mesmo segmento com Ariadne, Cobb afirma que a jovem não deve recriar ambientes reais, mas construir espaços completamente originais, procurando reproduzir aspectos diminutos, mas nunca um local inteiramente existente fora do sonho. Com isso, para facilitar a identificação entre o que é real e não é, existem o totem, um objeto que possibilite o sonhador de ter uma consciência da veracidade de onde se encontra, como um dado viciado, uma peça de tabuleiro, entre outros, sendo o mais emblemático um pião usado por Cobb que, ao ser girado, se cair mostra ao protagonista que ele não ficou atrelado a um sonho. E, uma vez dentro do sonho, para identificar a aqueles que estão imersos naquela dimensão que a missão está perto de se encerrar, usa-se uma canção que estabelece uma noção temporal clara aos personagens – inclusive, o tempo é uma ferramenta interessante por incrementar uma urgência na execução do plano.

Estruturalmente, a obra caminha por três linhas narrativamente simultâneas que mostram os eventos dentro dos três níveis dos sonhos. Até que Nolan nos apresenta um quarto: o limbo. Durante os acontecimentos do primeiro nível, Saito é atingido e começa a sentir o impacto do ferimento nos demais níveis e, devido a sedação forte, ele não pode ser morto, já que irá para o limbo. Lá, não existe regras de tempo ou espaço, sendo como uma “folha branca” onde o sonhador pode preencher com o que quiser. E, devido ao tempo demasiado naquele local, a pessoa pode perder completamente lembranças e pensamentos diversos em sua mente. Basicamente, esse espaço é um subnível dos sonhos onde não se possui nada construído aqui – e, devido ao fato de Cobb e sua esposa, Mal terem passado anos naquele local, quando chegamos a esse ambiente, vemos o resultado nos prédios que construíram nesse período.

O conceitualismo de Nolan é bem fundamentado e contextualizado durante essa primeira hora de projeção, desde as conversas entre Cobb e Ariadne e alguns fatos que a mesma aprende ao lado de Arthur. E, após todos os elementos desse universo serem bem fundamentados, Nolan se diverte ao articular cada um deles, sem recorrer a uma forte quebra de realidade, oferecendo tal recurso de maneira pontual. Primeiramente, acompanhamos a elaboração do plano, que é construída de modo fluído através da excelente montagem de Lee Smith que, intercala com agilidade os eventos simultâneos e oferece uma contextualização do plano eficiente sem jamais se tornar maçante ou desequilibrar a coesão das cenas, já que a obra caminhava com um ritmo estimulante até aquele ponto, preservando o interesse do espectador.

Já o design de produção de Guy Hendrix Dyas é inteligente ao oferecer uma interessante lógica de labirinto nos locais internos e ao decorar os espaços de acordo com as preferências do sonhador, como exemplifica os tons de bege dos corredores no hotel, remetentes a elegância de Arthur; e além disso, é fascinante ver como Dyas e a direção de arte brinca com as possibilidades dos sonhos na composição dos espaços, desde as suas destruições até suas alterações. Claro que, eles tiveram um auxilio dos efeitos visuais, que conferem um deslumbre aos aspectos que não poderiam ser concebidos em recursos práticos. O figurino também se conecta a composição dos espaços no que diz respeito a criar uma identidade visual aos seus personagens: das roupas joviais de Ariadne, aos smokings e vestimentas charmosas usadas por Arthur, até os vestidos longos e sensuais de Mal, conferindo sempre uma aura de “femme fatale” a sua composição.

Contudo, é interessante ver como Nolan compreende a necessidade de articular o componente dramático e emocional do desenvolvimento de alguns personagens e na relação que nutrem. Um bom exemplar é a dinâmica Cobb e Ariadne que, representando uma aura de compreensão e auxílio constante para Cobb, é o meio de comunicação entre o espectador e o protagonista, onde gradativamente compreendemos seus conflitos e traumas, através de uma construção paciente e intensificada pela performance inspirada de Leonardo DiCaprio que dá vida a um homem complexo em níveis emocionais, mas que pouco deixa com que as pessoas ao redor enxerguem suas cicatrizes íntimas. Já Ellen Page oferece a Ariadne muita humanidade e serve de um forte apoio na compreensão dramática da figura de Cobb. Já Joseph Gordon-Levitt oferece uma aura charmosa a Arthur, enquanto Tom Hardy se diverte na composição fluidamente cômica de Eames; já Ken Watanabe oferece mais um aspecto humano na jornada dos personagens, enquanto Marion Cotillard personifica o sentimento de culpa constante na mente de Cobb.

Contando com uma composição sonora grandiosa e emocionalmente arrebatadora de Hans Zimmer, A Origem é uma experiência fabulosa pela sua escala, admirável pela sua criatividade audiovisual e brilhante pela sua concepção conceitual, entregando uma ficção complexa, não pela dificuldade de ser interpretada, mas por ser desafiadora na execução de sua narrativa. E, como se não fosse suficiente, Nolan ainda entrega um desfecho aberto a discussões e que deixa o espectador processando a experiência por mais tempo do que ocorreria em um blockbuster convencional.

Uma viagem filosófica, dramática e envolvente pelos espaços mais profundos da mente.

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