agosto 10, 2020

Usufruindo da Guerra de Secessão como fundo histórico, a diretora e roteirista Greta Gerwig em sua adaptação literária homônima do filme abre portas para a conversa sobre a diversidade feminina, na realidade e na ficção literária.

Como em quase todas as guerras os homens vão a luta e as mulheres ficam em casa. A personagem Josephine, interpretada por Saoirse Ronan – que prefere ser chamada de Jo – é a quebra dessa passividade que a guerra provoca dentro de uma estrutura social de casamentos como investimento econômico e do sustento exclusivo do homem. Ela é escritora que busca vender seus textos para o jornal para sustentar sua família, textos esses que são de valor de entretenimento para homens, com mortes e sangue, até porque o contexto era a guerra. Além disso parece se interessar por um professor.

A diretora inicia seu filme com essas perspectivas que na verdade são masculinas, em que até faz piada com isso quando um homem diz a uma mulher que ela está pegando fogo, sendo que era literal. Ao mostrar a situação de cada irmã o princípio apresentado são mulheres sofridas, cada uma com seu problema econômico, de doença ou de autoestima artístico. Só surge felicidade quando Jo conhece Laurence, vivido pelo ator Timothée Chalamet em sua infância. Parece surgir um romance, então Greta como roteirista mostra o fio narrativo emocional.

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A escritora da família é o centro sensível da trama, e na apuração da história existe um conciliamento temporal da fase mais adulta das irmãs de Jo com a fase que elas eram crianças. Cada um com sua vida independente nuclear da história comparativamente a infância durante a guerra. Ao longo do filme a montagem vai cuidando criar paralelos de sustento para fluidez e até mesmo para compor consequências dramáticas. A direção também permite muito a diferenciação de épocas pela caracterização tanto física quanto comportamental de cada personagem, soando intencionalmente bem diferentes para criar diferenciação a princípio só temporal.

E então Greta busca surpreender com o recurso literário. Em certo momento o filme mostra a capa do livro “Little Women”, de época, como escrito no período do retrato fílmico. Intrinsecamente a visão inicial das irmãs March a diretora supostamente cria uma narrativa por trás de outra não com a intenção simplificada de flashback, mas para fundamentar um discurso genuinamente feminino que a realidade masculina colocada nos primeiros minutos do longa-metragem servisse como contraponto, exaltando a caracterização e detalhes da vida de cada irmã: Amy, Meg e Beth.

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É possível perceber pela luminosidade de cada época visualmente gravada, na empolgação na montagem das conversas entre as irmãs em casa, colocando-as em planos que indicam as afinidades diversas de cada uma e explorando a expressividade delas, diferentemente do tempo adulto quando se mostram mulheres mais ponderadas e distantes pelos seus afazeres. Greta embeleza o filme não por aproveitar ambientes da Europa ou os campos do interior dos E.U.A, mas por detalhar os infortúnios, brigas e os pequenos grandes momentos ordinários que a irmandade feminina poderia provocar. Gradativamente a percepção é completamente feminina, embora a realidade masculina ainda apareça por meio de Laurence, o anseio pela volta do pai da guerra, ou o tio de Laurence.

Em nenhum momento busca-se vilanizar o homem, na verdade o alcance é mostrar o homem por meio do olhar de uma mulher, não como único objetivo da vida, mas como um romance verdadeiro, dentro da realidade, não romantizado como nos romances literários. A voz do homem é ouvida, porém antes o filme quer ouvir Beth tocar, Meg interpretar e Amy pintar. Todas com sonhos diferentes, com relacionamentos diferentes entre si.

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Nessa diversidade feminina, essa feminilidade sobre quem querer casar, sobre onde querer tocar ou sobre como querer viver é que Jo, já centralizada na narrativa, vai se construindo, a partir das irmãs. A sua visão era muito clara, sua premissa objetiva, porém mais do que ser imponente e quebrar paradigmas sociais ela se fazia pelo que era cada irmã. Sua voz é o filme em si, esse era seu romance, não Laurence. A vida das irmãs March escrita é que o que fazia importante, pois era seu sonho de escrever.

Logo, Greta Gerwig dá uma reviravolta sobre percepções ficcionais e realísticas por meios sensíveis. Como um livro seu filme não perde a urgência de uma escrita feita para vender nem mesmo a sensibilidade. Embora a montagem de imagens coladas emitam compreensão dos assuntos, como num livro, ela pode se equivocar na síntese visual do universo feminino criado dentro da sociedade masculina, confundindo pressa com empolgação, ou objetividade de assinatura com justaposição.

Eliza Scanlen in Columbia Pictures’ LITTLE WOMEN.

Apesar disso, seu “plot twist”(grande revelação ou virada de roteiro) lúdico de narrativas e dramático em contextos permite que seu filme entregue a conexão emocional direta com o audiência de um tempo e de uma metalinguagem literária dentro do audiovisual, e dentro de noções históricas.

Por isso “Adoráveis Mulheres” se harmoniza pela dinâmica autoral tanto dentro do filme quanto fora, entre a realidade e a ficção. Josephine não tem seu nome abreviado porque ela é apenas uma personagem, sim porque ela escreve sobre sua história com suas irmãs na infância e juventude durante a guerra histórica, na realidade de histórias escritas vendidas para homens. É uma amálgama de narrativas que uma mulher pode contar, sobre batalhas, sobre romances, no entanto o que importa a princípio é a obra pertencer a mulher para a compreensão da heterogeneidade da visão feminina pelo público, como começo de fato de uma realidade feminina existente além da ficção. 

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