Casal Improvável (2019) | Crítica

     Algumas produções vêm usando o cinema para passar diversas mensagens, fazer críticas e nos dar um alerta sobre alguma causa que precisa ser observada. Em 2018 tivemos o ótimo Infiltrado na Klan, um filme que teve sua pitada acida de comedia para tratar um assunto extremamente polemico e atual que precisa ser debatido. Sem fazer qualquer comparação entre as duas obras e usando apenas como referência, Casal Improvável usa a comedia para fazer duras criticas a nossa sociedade, sem abrir mão do humor e romance, fazendo uso dos clichês tradicionais, mas usando recursos “palpáveis” para desenvolver seu enredo, fazendo uma experiência reflexiva e divertida.

     O filme é dirigido por Jonathan Levine, diretor de Meu Namorado É Um Zumbi e Sexo, Drogas e Jingo Bells, e escrito pela dupla Dan Sterling e Liz Hannah, roteiristas que costumam trabalhar com obras semelhantes ao estilo do diretor. Desde a primeira cena a direção já mostra qual será o sentido da produção, sem perder tempo o filme já levanta questões religiosas e raciais, denunciando a presença ainda forte nos dias atuais, o tom da comédia acusa não ser apenas gratuita, o roteiro e a direção avisa que terá algo para dizer. O diretor faz uso de fórmulas tradicionais da comedia americana, a moça bonitona e o cara largado e aparentemente fracassado estão presentes, o amigo descolado, o bonitão que é melhor para a mocinha, tudo está presente. Chega a ser curioso essa repetição e em alguns casos isso é cansativo, mas americano gosta desse tipo de produção, a prova disso é que o filme se pagou nas duas primeiras semanas nos EUA. Com o roteiro na mão, o diretor sabe qual o objetivo da sua produção e esse apego do publico com esse tipo de obra ajuda a desenvolver o enredo e assim passar sua mensagem. Durante toda a construção narrativa o filme conversa com o público, de forma divertida,e com temas fortes. Além das questões raciais e religiosas, politica, meio ambiente, machismo, posicionamento feminino, padrões de beleza, tudo está presente. O filme faz questão de dizer que é possível conviver com posicionamentos políticos diferentes, que é necessário buscar o meio termo para que seja bom para todos, que religião e politica não devem se misturar quando se trata de interesses individuais ou de um grupo de indivíduos, que as mulheres não precisam seguir os padrões de beleza impostos pela sociedade, muito menos ser prisioneira disso, o que ela precisa é estar bem da forma que queira, também a tão discutida posição política feminina estar presente e forte, como deve ser.

O monopólio midiático que as grandes empresas exercem, ditando o curso dos fatos e o envolvimento dessas empresas na política, financiando políticos e mantendo as rédeas. O momento atual do jornalismo também não passa em branco, a critica é pesada para aqueles que exercem a função de forma artificial, sem se aprofundar, sem investigar e buscar a verdade. Sobrou até para a convenção de Estocolmo de 1972, onde a preocupação com o meio ambiente parece patinar e não sair do papel como deveria, além claro, do machismo totalmente “out of time”. O diretor encontra equilíbrio para discutir todos esses temas sem perder a veia cômica que o filme propõe, dividido claramente nos três atos. A cada transição, um tema é usado para discutir as relações entre os personagens e as questões sociais, o plot twist surge trazendo exatamente isso, o clichê da separação do casal e da reconciliação, usa o agridoce com temperos críticos, o que cai muito bem e foge da tradicional resolução.

    Outro ponto extremamente positivo é a dupla que protagoniza, Charlize Theron e Seth Rogen trazem, de fato, um casal improvável. A química entre os dois deixa tudo muito fluido, a Charlize é uma atriz que tem um talento espetacular, ela tá bem morena, loira, careca, sem a mão, ela é um show. Seth Rogen traz o seu estilo, mas adiciona uma seriedade maior para não fugir da proposta. Juntos eles rendem ótimos momentos, boas piadas, bons diálogos, além da melhor cena de dança do ano, muita gente vai se identificar, vale ressaltar que os dois também são os produtores do longa. É difícil dois atores com estilos tão distintos causar uma boa impressão, isso reforça a ideia que a mensagem a ser passada muitas vezes é mais importante que qualquer outra coisa, ambos os atores têm trabalhos excelentes trabalhos sociais.  O elenco de apoio também tem um bom desempenho, o ponto fraco fica para Bob Odenkirk (Better Call Saul), tudo que vimos nele já foi visto em outros filmes e series.

    Ao fim da sessão, a sensação que fica é que as comédias não precisam ser gratuitas, é possível divertir e transmitir algo mais profundo. O besteirol americano parece estar ficando fora de moda e comédias inteligentes estão ganhando mais espaço, cabe ao publico a responsabilidade de encontrar isso na comédia, mas se por caso você não consegui de imediato, divirta-se, dê boas risadas e busque alguém para conversar sobre os questionamentos apresentados, precisamos urgentemente do meio termo.

  • Long Shot
  • Duração: 120 minutos
  • Diretor: Jonathan Levine
  • Roteiro: Dan Sterling, Liz Hannah
  • Elenco: Seth Rogen, Charlize Theron, Andy Serkis, Bob Odenkirk
%d blogueiros gostam disto: