agosto 5, 2020

Destacamento Blood (2020) | Crítica

     Spike Lee é um diretor que sempre buscou o discurso acima de qualquer outra coisa na maioria dos seus filmes, seus lançamentos geram diferentes expectativas e parecem chegar no momento certo dentro do tema que propõe. Em Destacamento Blood isso não é diferente, toda carga e todas as camadas que o filme apresenta se chocam diretamente com o que está acontecendo no momento, obviamente o filme é pensado no mundo real, mas o curioso é enxergar as semelhanças com os acontecimentos ali apresentados com o que vem acontecendo no mundo, é uma linha de pensamento e comportamento que não se mostra difícil de prever, mas estranhamente difícil de combater. Se inicialmente o projeto que virou esse filme tinha Oliver Stone como diretor e se chamava The Last Tour, tendo 4 veteranos brancos, hoje é difícil imaginar que a mudança do diretor e a decisão de reescrever o filme não tenha sido a melhor decisão, o lugar de fala conta muito e Spike Lee sabe muito bem usar isso ao seu favor.

     Em Destacamento Blood acompanhamos a jornada de 4 veteranos negros que decidem voltar ao Vietnã para buscar os restos mortais do seu líder e desenterrar um tesouro deixado por lá. É uma premissa simples que só funciona bem com um contexto forte por todo enredo e é isso que acontece desde a abertura, com pequenas oscilações. A mescla entre imagens reais e as gravadas para o filme dão um tom de realismo e imersão que é característica do diretor. Ao abrir o filme com o discurso de Mohamed Ali sobre a guerra do Vietnã, Lee puxa o espectador para sua história, adicionando imagens reais e chocantes sobre o terror da guerra, o espectador que estiver acostumado com o contexto histórico irá identificar tais acontecimentos e talvez terá menos impacto, mas aquele que for pego de surpresa, certamente ficará chocado com os monges que cometeram suicídio ateando fogo ao próprio corpo em protesto a tudo aquilo ou então no ataque com napalm a crianças vietnamitas, o diretor ainda mostra a execução de um soldado vietcongue, essa que é umas das imagens que marcaram essa guerra, um tiro a queima roupa, na cabeça, que é reproduzido sem cortes, tudo isso sendo intercalado com discursos de Martin Luther King Jr, Malcolm X e Angela Davis, é uma das aberturas mais impactantes e de imediato causa uma avalanche de reflexões e questionamentos, é o primeiro grande acerto do diretor, causar essa reflexão imediata e deixar claro o tom do filme.

     A partir daí a jornada se inicia em um tempo não linear, em vários momentos o vai e vem tem diferentes significados e objetivos, além de mostrar os laços dos Bloods, o grupo de veteranos. O cinema também é contemplado; o granulado, o quadrado da tela, a super 8, são estilos e escolhas adotados que trarão uma maior imersão e também uma clássica revisitação a outros momentos do cinema. Essa relação do grupo é que dita o rumo da trama, pois os questionamentos e “gritos” que o diretor quer passar vem em sua maior parte deles, é uma relação de amizade, companheirismo, lealdade, luta pela causa, importância da liderança e todo misticismo que envolve um grande líder e, principalmente, a atemporalidade desse líder. Didaticamente o filme vai estratificando todos os pontos que precisa abordar e explicando ao espectador, é uma forma delicada, pois geralmente isso fica cansativo e não natural, no entanto aqui funcionou, pois tem coisas que precisam de repetição, mesmo que você saiba, é necessário dizer mais de uma vez para que aquilo fixe. Você sabe que existe racismo, que existe preconceito, que os negros foram enviados, percentualmente, em sua maioria para guerras e missões de alto risco, que mulheres foram tratadas como inferiores e não tinham a chance de mudar, mesmo “sabendo” disso, tem que ser repetido diversas vezes para que não exista dúvida; em vários momentos isso é batido em tela pela cena ou pelas palavras de algum personagem, o que funcionou muito bem.

     Esse mesmo recurso é usado com um dos personagens em diferentes momentos, Paul, interpretado por Delroy Lindo, é o veterano que mais sofre com o estresse pós-traumático e em várias vezes o personagem repete isso, porém sem necessidade, o público já havia entendido isso. Todo elenco principal está muito bem e engajado na missão do filme, através dos personagens as diferentes visões e relações são apresentadas, questionamentos sobre posicionamentos também surgem de forma natural e contrasta com a luta da maioria, em um determinado momento um personagem pergunta para o outro: “Como você votou no Trump?” é uma pergunta que confronta o movimento afro-americano e levanta uma grande discussão. Delroy Lindo é o ator que mais se destacou nesse filme, esse talvez seja o seu melhor momento. Seu personagem transmite com clareza diferentes questões, desde a guerra até os tempos atuais, passando pelas relações pessoais; o filme ainda guarda um monologo espetacular e é aqui que o ator consolida seu excelente trabalho, cheiro de premiação no ar. Outro recurso que requer cuidado é o uso da música diegética (clique no link na palavra para saber o conceito), muitas vezes os filmes usam a música para repetir o que está sendo mostrado ou falado e isso fica artificial. Aqui fica perfeito, quando uma tensão toma conta do grupo e todo o contexto é deixado de lado, toda luta e a história deles, levemente a música “What´s Going On” de Marvin Gaye surge e pergunta: “o que está havendo?”

     Spike Lee ainda encontra tempo para fazer várias referências a filmes semelhantes, como “Apocalipse Now” e “Platoon”, reforçando esse contexto cinematográfico apresentado no início, é reverenciar o cinema pelo cinema. Tecnicamente o seu filme é excelente, com diferentes formas de formato de tela, transições, abro um parênteses para um momento em que a tela se abre parecendo um olho e você dá de cara com uma floresta densa e ameaçadora, além da violência que quando surge é gritante, tem uma execução nesse filme que dependendo do seu nível de imersão, lhe renderá uma reação daquelas, além de uma ótima fotografia, uma boa trilha e todas as características que estão em filmes com temáticas de guerra, com uma sutileza que vai do clichê ao rebuscado. O lado vietnamita* apresentado soa um pouco caricato e mesmo que seja bem-intencionado, deixa turva a visão de um povo que também é vítima. Outra coisa que me incomodou foi o arco de uma ONG francesa, me pareceu um recurso usado apenas para dar a dinâmica aos acontecimentos da própria trama e acabou ficando um pouco artificial, principalmente pela atuação da atriz Mélanie Thierry, que pareceu não estar na mesma pegada do diretor e seus protagonistas. Outro que há muito estava sumido e ressurgiu é Jean Reno, o ator pouco acrescenta e seu personagem se não existisse, não faria falta.

     Destacamento Blood é um filme necessário que chega no momento certo. Assim como o mais recente trabalho do diretor, infiltrado na Klan, esse também fortalece e alerta sobre situações que de forma alguma podem ser tidas como “normais” ou ignoradas, é um discurso firme, forte, honesto, para uma sociedade que insiste em viver na decadência e tem escolhido a ignorância. Se você não for a favor do discurso, terá que render a técnica apresentada, pois, mais uma vez, Spike Lee acerta no alvo. #blacklivesmatter

Avaliação: 4.5 de 5.

*Tive a curiosidade de pesquisar sobre o que o Vietnã achava dessa produção e existem várias críticas sobre a representação da cidade de Saigon dos tempos atuais, sobre o uso de fogos de artifício, pois é proibido no país, além da questão das minas terrestres, o governo do Vietnã fez um longo trabalho de localização e retirada dessas minas, tendo diminuído e quase liquidado com os campos de minas, inclusive praticamente zerando os casos de acidentes com crianças, diferente do que é visto no filme. Isso não influenciou na nota desse filme, pois o texto estava pronto antes dessa pesquisa, como também não induziu a produção, mas é uma informação que precisa ser compartilhada.

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