dezembro 1, 2020

Fogo Contra Fogo (1995) | Crítica

O drama criminal sobre a complexidade das interações humanas.

Michael Mann é um dos realizadores mais notáveis dentro do gênero da ação, sempre procurando pautar as cenas em um realismo palpável e um controle espacial fascinante. Aqui em Fogo Contra Fogo – ou Heat, completamente diferente da “adaptação” brasileira – o diretor procura transformar a cidade de Los Angeles em um personagem adicional que carrega consigo as mais diversas figuras, dramas e conflitos internos. L.A. se transforma na protagonista de um implacável jogo de perseguição entre um policial consumido pelo seu trabalho e um assaltante profissional que almeja abandonar completamente a vida na qual se vê imerso.

O interessante do roteiro – escrito pelo próprio Mann – é como ele dedica boa parte primeira hora de filme sobre o peso emocional e a construção dramática de suas figuras para, finalmente, ir ao que realmente importa: a ação e a narrativa de caça. Com isso, acompanhamos detalhadamente os conflitos íntimos de seus personagens – incluindo os dois pilares: Vincent (Al Pacino) e Neil (Robert DeNiro). Testemunhamos a rotina de ambos, cada um em diferentes extremidades da corda moral e enxergamos virtudes e erros em seus atos, mostrando como Mann materializa os dois como personas complexas, cobertas de defeitos e boas ações.

Os personagens que transitam a Los Angeles de Heat são emocionalmente ambíguas, jamais se posicionando em extremos claros de comportamento, algo comum em narrativas que envolvem assaltantes de bancos sendo caçados pela força policial. Peguemos como exemplo o Chris, interpretado por Val Kilmer: mesmo instável e entrando em conflitos com sua esposa, Charlene (Ashley Judd), ele é incapaz de fazer mal a ela – embora em situações que se encontre consumido pela raiva –  e se vê forçado a fugir apenas para garantir a liberdade de sua mulher, que seria presa ao seu lado e acabaria por destinar seu filho, Dominik, a um futuro onde a presença de imagens paternas fosse nula

Curioso como tal tema da negligência/ausência de imagens paternais é retratada na jovem Lauren (Natalie Portman em início de carreira) que, implora pela atenção e afeto de sua mãe, quase sempre sendo desprezada por Justine (Diane Verona), criando uma enorme frustração na menina e resultando em um instante desesperador entre ela e Vincent, mostrando as reais e destrutivas consequências de tal tratamento. E por citar Vincent, é curioso como Al Pacino – provavelmente, o melhor ator vivo em Hollywood – traz na composição do sujeito uma imagem agradável, embora condenável; ele consegue trazer um carisma a sua performance que vai de frente ao alcance dramático que necessita para mostrar um sujeito com uma enorme dificuldade em conciliar seus relacionamentos íntimos com a dedicação excessiva ao seu emprego.

Já Robert De Niro interpreta Neil como um criminoso solitário e amargurado que tampouco se contenta das suas ações e tem como o maior desejo fugir dessa vida, algo que Niro expressa no olhar e na expressão corporal que mostra um homem que passa uma imagem de controle para esconder o quão vazia é sua vida nesse momento atual. E nesse ponto que entra Eady, na qual Amy Brenneman compõe como uma alma igualmente isolada que representa a saída de Neil desse mundo de crime. Não só funcional dentro do gênero de ação/criminal, Heat se revela um eficaz drama sobre as complexidades das relações humanas, já que os conflitos e angústias internas daqueles em cena são o fio condutor para os momentos mais eletrizantes da narrativa. 

Estruturalmente, é bem simples e até convencional, enfocando um jogo de caça e caçador, contudo, dentro da área urbana onde os recursos são mais amplos e a dificuldade se torna maior. Los Angeles é uma espécie de tabuleiro onde as peças se movimentam até culminar em um encontro inevitável entre os componentes mais importantes da partida. E, lógico, isso ocorre no fabuloso instante onde acompanhamos uma… conversa. A genialidade de Mann, no entanto, é na forma como concebe tal cena, indo da construção dos diálogos, inciando simples, mas se tornando provocativos a medida que avança e na composição dos intérpretes, estabelecendo assim esse como o momento mais intenso da projeção, mesmo que se limite a um mero bate-papo.

Todavia, Mann é um diretor de ação e aqui, muito das sequências ganham pelo controle e realismo que ele injeta: além de manter a câmera no nível humano para que venhamos a acompanhar todos os tiros e o caos estabelecido pela encenação com uma imersão atrativa, ele acerta ao estabelecer uma idealização muito clara e geograficamente compreensível – acerto esse que vemos na deslumbrante cena do tiroteio na rodovia. A tensão também se revela em um jogo interessante de montagem, intercalando situações simultâneas para mostrar diferentes aspectos dos momentos – e Mann exemplifica isso logo na sua abertura.

Interessante e envolvente mesmo durante quase 3 horas de projeção, Fogo Contra Fogo é um intenso jogo de caça que explora as complexidades de suas figuras e entrega personagens cobertos de personalidade, algo raro dentro desse tipo de narrativa.

E digno de aplausos.

Avaliação: 5 de 5.
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