Hellboy (2019) | Crítica

     Trazer o universo dos quadrinhos para o cinema sempre permite grandes possibilidades, são várias histórias, vários arcos e muitas diferenças técnicas devido a característica de seus profissionais, o traço do desenho, o estilo da narrativa, a ambientação geográfica, tudo isso funciona como uma espécie de permissão para criar e recriar, o novo HellBoy é isso, uma recriação cinematográfica de um personagem já conhecido, já amado e estabelecido dentro desses mundos, HQ e cinema.

     Quando o diretor Neil Marshall apresentou David Harbour como o novo HellBoy, as comparações com o seu antecessor rapidamente surgiram, não só com o protagonista, mas com o diretor também, afinal a dupla anterior era Guilhermo Del Toro e Ron Perlman, também a necessidade de fazer um reboot foi questionada por que os dois filmes anteriores a esse eram muito bons. Conforme disse no início desse texto, o universo dos quadrinhos permite isso, contar uma nova história com diferentes características técnicas e abordagens sem que seja um reinício propriamente dito, talvez tenha sido esse o pensamento, mas o fato é que desde as primeiras imagens esse novo “traço” do protagonista já chamou a atenção, não pela diferença do seu antecessor, mas pela qualidade mesmo. Vendo o HellBoy em cena a sensação é que algo deu errado, talvez a roupa usada pelo ator, o uso dos efeitos visuais na pós-produção para compor o personagem ou a dificuldade para se expressar, algo não saiu como o esperado. A construção do personagem também é outro problema, a ironia ácida e o sarcasmo tão intrínseco não funcionam aqui, incrivelmente o filme patina bastante nisso, na falta de um texto bom, o corpo ajuda, mas quando não se consegue uma boa expressão, o corpo não ajuda e a falta de expressão já citada, contribuiu para isso, o que é uma pena por que em alguns momentos, as tiradas são boas, mas não o suficiente para trazer o personagem da forma que conhecemos.

     Os desentendimentos entre o diretor e os produtores refletiram bastante no longa, em vários momentos o filme parece confuso, o excesso de cortes na edição polui demais a tela e em alguns momentos fica estranho e cansativo, é muito corte. O visual é algo que também chamou bastante atenção, as criaturas são legais, bem elaboradas, mas não tão bem executadas, o trabalho de CGI ficou muito “grosso” e em vários momentos se percebe a falta de movimento e o recorte em tela, quando falo em vários, são vários mesmo, um orçamento de 50 milhões de dólares poderia ter um melhor capricho. O filme opta pelo sangue e gore, nas cenas práticas o resultado é bom, no CGI nem tanto, mas aqui está um dos pontos positivos do filme, se você não gosta desse tipo de coisa na sua frente, esse não é um filme para você, aliás a censura serve pra isso, muitas vezes as pessoas caem de paraquedas numa produção sem saber do que se trata, economize sua grana e invista em algo que seja seu estilo, não desperdice sua experiência nem atrapalhe a dos outros.

     O elenco tem boas atuações, porem elas não vêm de quem se espera, Sasha Lane e Daniel Dae Kim são os melhores nomes. Ian McShane pareceu extremamente desinteressado, esse é um dos seus piores papéis, Mila Jovovich traz mais uma versão genérica de si mesma, é incrível como ela vem piorando suas atuações ao longo dos anos, seus últimos bons papéis que surgem na mente estão nos filmes Contatos em 4º e em O 5º Elemento, esse último faz muito tempo. Produções como essa serve de exemplo para expor a falta de criatividade nos dias atuais e também a insistência em extrair ainda mais dos grandes sucessos, fica claro que é preciso muito mais do que simplesmente a ideia para que o resultado seja positivo, é preciso dar a devida atenção ao que mais interessa, a qualidade. HellBoy certamente dividirá opiniões e atingirá, com bastante pesar, uma parcela de fãs, fazendo com que seus antecessores surjam fortes nas comparações e trazendo mais forte ainda o questionamento se outro filme será realmente necessário, para os produtores parece que sim, mas se a bilheteria der sinais que isso será possível, muita coisa precisa ser corrigida, a começar pelo próprio protagonista.

  • HellBoy
  • Duração: 121 minutos
  • Diretor: Neil Marshall
  • Roteiro: Andrew Cosby, Christopher Golden, Mike Mignola
  • Elenco: David Harbour, Ian McShane, Mila Jovovich, Sasha Lane, Daniel Dae Kim
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