Midsommar (2019) | Crítica

     Escrito e dirigido por Ari Aster (Hereditário), Midsommar é mais um filme em que o jovem diretor de 33 anos imprime sua marca no terror conceitual após a sua “estreia” alucinante. Por mais que não soe original, pois já vimos essa abordagem em outras produções, o filme narra uma história de uma espécie de culto religioso que acaba em acontecimentos sinistros, os detalhes, os conceitos e seus desdobramentos faz com que o filme ganhe sua peculiaridade, fazendo com que uma história familiar soe tão singular, principalmente por trazer um festival que realmente existe na Suécia, sem tais acontecimentos, claro.

     A trama gira em torno de um grupo de jovens que viajam para a Suécia em busca de uma aventura e de conhecimentos, já que alguns estão concluindo a faculdade. É um clichê clássico nos filmes de horror, se tem jovens, algo vai sair dos trilhos e descambar na desgraça e é exatamente aqui que o espectador inicia seus conflitos mentais, “quando e como vai começar o descarrilamento?” mas sem perceber, o envolvimento com a trama vem de onde menos se espera, do dia, do claro, do colorido. Cada personagem desse grupo tem sua característica bem definida na sequencia do enredo. A protagonista se inclui nesse grupo após uma tragédia pessoal, Dani é interpretada por Florence Pugh e aqui já temos o primeiro ponto alto do filme, a atriz transmite todas as dores e sentimentos possíveis que uma pessoa pode passar quando se depara com tragédias semelhantes a que ela passou. Bem dirigida e totalmente à vontade, a atriz oferece uma excelente atuação desde os primeiros minutos, a sensação da dor, da angústia, da perda, do desespero, é bem reproduzida em suas expressões faciais e corporais, uma cena me chamou bastante atenção quando a personagem está chorando e você sente a vibração da laringe seca dando o famoso “nó na garganta”, impressionante. O restante elenco também se mostra bastante competente na mão do diretor, o Jack Reynor é bem sereno e sóbrio na composição e nas ideias do seu personagem; William Jackson Harris está bem funcional, seu personagem é apenas uma alça na continuidade da trama. Vilhelm Blogren traz aquele tipo de personagem que lhe causa raiva logo de cara, seu trabalho merece atenção, o ator transmite bem tudo o que seu personagem pede, o olhar, a voz, a cadencia, tudo encaixa bem. Will Poulter é o mais parecido com personagens de outros trabalhos, aqui ele é o responsável pelo alívio cômico e em vários momentos isso não funciona bem, o ar que circula durante o filme mantém o clima pesado, não dando muita brecha para piadas, a comédia não verbalizada funciona mais, o desenvolvimento e papel de cada um personagem dentro da trama fica muito claro.

Filme MidSommar 2019

     O roteiro é intrigante, a ideia apresentada é insanamente instigante, o uso do claro, do aberto, desconstrói a associação do terror com a noite. A câmera se posiciona bem, oferecendo boas tomadas e ângulos até inusitados, sendo aberta quando deve, girando de forma inesperada anunciando a loucura que vem pela frente. O colorido casa bem com a paisagem, oferecendo uma ótima cinematografia, qualquer frame que não tenha violência, rende um bonito quadro. A violência é algo que precisa ser citado, a utilização dos efeitos práticos traz uma sensação maior de realidade, muito sangue, carne, ossos, um visual forte, quando a coisa pega de verdade o espectador não é poupado. A trama tem um elemento lisérgico muito presente, o diretor usa muito bem esse elemento ao colocar nas cenas pequenos movimentos em objetos, nas flores ou no fundo do plano, a observação fica de acordo com a imersão do espectador, quanto mais você adentra naquela loucura, maior será sua percepção para esse aspecto.

Midsommar é um filme forte no gore e no conceito, não é um filme para todos os públicos e é necessário saber do que se trata para aceitar aquela viagem. Esse é um filme que precisa ser visto e sendo bem aproveitado, boas rodas de debate se formarão para discutir, principalmente, o cinema feito por Ari Aster. O festival citado no filme realmente existe e isso gerou muita polemica, muitas pessoas não concordaram com a associação do festival a um filme tão pesado em vários aspectos, principalmente na questão da violência. É uma pena que o filme não irá durar nos maiores centros de exibição, mas com certeza vai pulsar forte nos poucos cinemas de rua.

  • Midsommar
  • Duração: 147 minutos
  • Diretor: Ari Aster
  • Roteiro: Ari Aster
  • Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, William J Harper, Vilhelm Blomgren, Ellora Torchia, Archie Madekwe
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