dezembro 1, 2020

Natal Sangrento (2019) | Crítica

O terror como artifício para exercer comentários sociais e abordagens temáticas profundas não é algo inédito na indústria cinematográfica: antes de Jordan Peele criticar o racismo disfarçado em pequenos gestos em Corra! ou os ecos de um relacionamento abusivo em O Homem Invisível, o gênero já havia debatido sobre temas como complexo de Édipo (Psicose), a paranoia no ciclo social (O Bebê de Rosemary e O Enigma de Outro Mundo) e até a alienação social (inúmeros exemplares do subgênero dos zumbis). O horror pode ser usado eficientemente para causar reflexões diversas, algo que se mostra como uma das intenções deste remake de Black Christmas, lançado em 1974 e recontado anteriormente em 2006, sendo agora atualizada para os tempos atuais e inserindo um claro discurso feminista que condiz claramente com o período em que foi idealizado.

Uma pena que tal comentário seja tão superficial.

Na premissa, ambientada no período natalino (óbvio), acompanhamos um grupo de alunas da universidade Hawthorne que está prestes a saírem de férias. Amigas de um vínculo – aparentemente – forte, Riley (Imogen Poots), Kris (Aleyse Shannon), Marty (Lily Donoghue) e Jesse (Brittany O’Grady) começam a serem perseguidas por um assassino mascarado e impiedoso que deixa um rastro de sangue no campus e cabe as quatro jovens se defenderem de tal ameaça, não como vítimas, mas como lutadoras.

Lendo a sinopse acima, é impossível deixar de ter ótimas “primeiras impressões” com relação ao que veremos a seguir e, de fato, o seu início é bastante promissor: abrindo com um recurso curioso de transição – transformando gritos de desespero em risos emitidos por um grupo de amigas enquanto foca no fogo de uma lareira – , logo acompanhamos um segmento onde uma jovem caminha enquanto percebe estar sendo seguida para, logo depois, notar que o sujeito atrás dela não a perseguia; somente a estrutura do momento é o suficiente para incitar um forte comentário social a respeito de abuso sexual, mas a obra vai além ao trazer a moça improvisando um objeto de defesa com algumas chaves de sua bolsa, exibindo diretamente ao público de que suas figuras femininas são capazes de se virarem por conta própria.

Outro instante que é curioso nesse aspecto social é a cena na qual Riley canta em uma apresentação de natal: ao ver que um dos rapazes que se encontra no recinto é aquele que deixou marcas traumáticas – que não irei revelar, por conta de spoilers – em sua vida, acompanhamos seu processo de reação da maneira mais natural (algo que a intérprete domina muito bem) até o ponto na qual decide escarnecer com o sujeito através da performance musical, algo que faz com que venha a se sentir mais aliviada e explicita um repúdio forte do roteiro e da direção para pessoas como o tal jovem, colocando a protagonista para enfrentar suas feridas com coragem e pulso forte.

Contudo, falta um tato apurado para essa abordagem, já que, tirando esse segmento específico, esse tema jamais ganha a importância que deveria, desperdiçando a forte oportunidade de conscientizar o público adolescente masculino sobre como atos repugnantes como o abuso sexual trazem feridas amargas em nossas companheiras do sexo oposto e mostrar que tais ações jamais sairão impunes, embora ainda exista um forte machismo na resolução de casos semelhantes. E, através desse defeito que entramos na principal – e decepcionante – falha de Natal Sangrento: a abordagem de sua veia temática e o tratamento dado ao elemento “empoderador” que ali existe.

É sempre muito gratificante ver protagonistas independentes, fortes e capazes de resolverem seus desafios sem uma interferência masculina. Porém, não é por trazer esse “empoderamento” na construção dramática de suas personagens ou por lidar com temas como o repúdio pelo machismo e abuso sexual que transforma a obra, automaticamente, em uma produção profunda. Para tal feito, é necessário uma abordagem cuidadosa que saiba conduzir esse assunto de maneira profunda, fazendo o público refletir após sair da sessão. E, claro, há várias formas de se executar isso. Não há um padrão correto, a única exigência é que trabalhe o tema com atenção e, se possível, sutileza. Infelizmente – e me entristece constatar isso – a diretora e co-roteirista, Sophia Takal não consegue realizar tal feito.

Toda a discussão sobre os males do machismo e a necessidade do empoderamento, a força feminina e a importância da sororidade poderiam constituir em Black Christmas uma experiência que, além de caminhar pelos traçados do cinema de slasher, trouxesse uma discussão de maneira característica e reflexiva. No entanto, Takal e a roteirista, April Wolfe desdobram as discussões em dois âmbitos: o óbvio e o superficial. No primeiro, enchem suas personagens (em especial, aquela personificada por Aleyse Shannon) de diálogos irritantemente artificiais para transmitir o peso social da premissa, entregando uma obviedade textual deprimente que engole qualquer traço de sutileza que a sequência de introdução trazia consigo. Já o outro caminho traçado é a completa superficialidade no tratamento dos assuntos, ignorando-os quando deveriam ser ainda mais intensos, algo presente em muitas cenas do ato-central, o que desperdiça qualquer possibilidade do espectador refletir sobre os temas que põe em pauta.

Se atentando a problemas de roteiro, o maior deles é o didatismo enjoativo que se faz presente nos diálogos, já que sempre temos as soluções de determinadas perguntas, entregues ao público de maneira mastigada, chegando ao cúmulo de explicar verbalmente enquanto exibe uma série de flashbacks (nada mais do que uma forma mais refinada de chamar a platéia de “idiota”, assumindo que não iríamos entender tal informação). O texto também falha miseravelmente na construção do vínculo emocional que une as personagens, já que, além de apressado, é estruturado de uma forma artificialmente manipulativa e frágil, principalmente em como enfoca certos eventos impactantes envolvendo o quarteto. Dito isso, Aleyse Shannon, Lily Donoghue e Brittany O’Grady pouco podem realizar com figuras tão rasas e ausentes de um desenvolvimento dramático realmente funcional.

Contudo, a exceção vai para a excelente Imogen Poots que, mesmo já tendo estrelado várias produções – de terror, especialmente – irá permanecer sempre em anonimato, o que é lamentável, devido a seu talento: ela insere força, carisma, charme, intensidade e até energia em suas expressões faciais (sejam de espanto ou raiva); a intérprete sabe perfeitamente trabalhar com olhares, a fisicalidade é gratificante e seus brevíssimos momentos de alívio cômico denotam um talento e esforço maior do que o filme realmente merecia. Ela se entrega completamente a Riley e cria uma persona independente que, ao mesmo tempo, demonstra uma fragilidade interna devido a suas cicatrizes do passado – algo bem construído pela atriz, já que o texto não se preocupa em trabalhar esse aspecto.

E, claro, como filme de gênero, Black Christmas se desempenha melhor do que em sua vertente social. Takal insere uma direção cuidadosa na maneira que manipula o suspense; a atmosfera crescente é reforçada pelos recorrentes planos subjetivos que enfocam as personagens através de janelas em superfícies elevadas, a realizadora insere alguns planos-abertos que capturam amplamente os espaços internos de modo que faça com que o espectador venha a desconfiar da presença do assassino em cena – algo que os enquadramentos através de cômodos com a porta aberta também sugerem. A câmera se aproxima com sutileza empregando zooms provocativos e movimentações laterais que só reforçam o senso de apreensão.

Mas, ela sofre de problemas com a idealização e execução das cenas de morte: além de completamente genéricas em sua construção, são movidas a enquadramentos fechados que pouco exploram a visceralidade dos eventos (até esse ponto, pode se argumentar que é uma escolha proposital), uma edição embaralhada em uma justaposição entre diversos pontos de vista da cena e a ausência de um impacto, especialmente naquelas que representam uma importância maior para o elemento dramático do projeto. E se a diretora caminhava bem na construção atmosférica, não demora muito para que reutilize os recursos picaretas do gênero como os jumpscares e altos acordes da trilha sonora – completamente esquecível, por sinal.

Inserindo uma divertida referência ao Massacre da Serra Elétrica e A Hora do Espanto ao citar uma rua Elm, 1974, Natal Sangrento é um remake pouco funcional do ponto de vista social, usando o empoderamento como uma jogada de marketing sem jamais entregar o potencial temático que possui em suas mãos. O resultado é um exemplar esquecível do subgênero que, ao tentar inserir modernidade, decepciona ao não se mostrar capaz de elaborar uma reflexão interessante sobre os assuntos que carrega consigo.

No fim, uma grande e amarga decepção.

Avaliação: 2 de 5.
%d blogueiros gostam disto: