outubro 25, 2020

Kelly Reichardt em Meek’s Cutoff (Ou O Atalho) parte de uma premissa simples e objetiva (três diligências que vão de um ponto x ao ponto y) para construir seu fundamento dramático de modo sensorialmente eficaz, quase sempre rejeitando a verborragia do roteiro e procurando transmitir os sentimentos internos de seus personagens através das suas imagens e da força que evoca através delas. Nesse sentido, é curioso como a diretora repete um feito semelhante ao executado por John Ford no clássico Stagecoach ou No Tempo das Diligências, de 1939.

Naquele filme, Ford transmitia os sentimentos mais profundos e os mais sutis de seus personagens através de suas imagens e de como filmava os pequenos gestos: o caminhar de um/uma personagem, se aproximando de outro/outra ou um singelo olhar que é mais revelador do que aparenta. Através disso que Ford faz do laço de afeto crescente entre Ringo (John Wayne) e Dallas (Claire Trevor) ainda mais poderoso, já que enxergamos ele através dos pequenos detalhes, dos gestos minuciosos que refletem perfeitamente a atração que um sente pelo outro, da gentil postura de Ringo com a moça até a preocupação de Dallas com o destino de seu amor. Então, de certo modo, é justo dizer que Reichardt resgata essa composição Fordiana para estruturar seu drama através da imagem.

Para isso, Reichardt decupa boa parte dos planos em uma lógica curiosa na qual privilegia os aspectos micro dentro de uma construção que evidencia o macro: os inúmeros planos abertos das planícies desérticas do velho oeste servem ao propósito de reforçar a missão exaustiva que reside nessa viagem das três diligências ao exibir o quão extenso e até hostil é esse ambiente, esse espaço árido na qual os personagens precisam enfrentar. Nesse sentido, existe até um sutil embate entre “humano” contra “natureza” que é bem implícito, mas acaba se tornando reincidente, mesmo que de forma delicada. Toda essa perspectiva do pequeno em meio ao grandioso se reflete em elementos como os quadros na qual enxergamos aquelas figuras e o seu background sendo o horizonte que parece eterno, sem fim.

De certo modo, ao fazer esse contraste na formulação da imagem, Reichardt reforça a importância do drama humano em escala micro, em um peso menor, já que boa parte dos conflitos envolvem elementos que são aparentemente diminutos, mas que possuem uma grande força emocional e até um subtexto social poderoso (a discriminação da figura/cultura indígena, a importância da imagem feminina) . E, é através dessa exploração que a diretora faz dos elementos dramáticos em um nível pequeno, porém grandioso em seu impacto, que nasce a principal semelhança ao trabalho de Ford em Stagecoach: a exploração dos gestos.

Tal como o diretor norte-americano fez no clássico de 1939, Kelly Reichardt transmite as emoções, em diversos momentos, através de gestos discretos que são realizados pelos seus personagens: um ato de defesa não é pronunciado, mas nasce de uma ação objetiva que faz Emily (Michelle Williams) empunhar uma arma a determinado personagem em um momento da projeção. São tais gestos que transmitem o carinho e a indiferença de uma figura com a outra. Um pequeno ato de Emily em costurar as botas desgastadas do Índio que expressa uma ternura calorosa da qual se mostra ausente nas demais representações masculinas, aqui sempre presos a uma visão imediatista das problemáticas. Um olhar enfocado pela cineasta acaba ganhando mais importância do que qualquer verborragia explícita vinda do roteiro. Nesse sentido, Reichardt concebe aqui uma obra que fundamenta bem o componente dramático através de sutilezas. Não é um filme austero, mas evita o “grito” ao transmitir a sua composição emocional.

Reichardt também explora o lado trivialista desses gestos, já que enfoca situações e ações que possuem um peso dramático menor, mas expressam atos cotidianos dentro dessa jornada: os personagens ao redor de uma fogueira, uma caminhada, uma pausa, uma conversa, uma busca por nutrientes (água, madeira, alimento), a cineasta reproduz em diversos pontos esses momentos de importância “reduzida” para conceber uma conexão ainda maior entre obra e público, posicionando o espectador como um observador quase participativo; uma imersão que é feita através dos pequenos atos, dos gestos em escala micro que exercem uma função macro dentro da narrativa da diretora.

O Atalho é um western que exerce bem o drama através de uma abordagem sutil e gestual, onde um simples olhar possui um impacto tão grandioso do que um monólogo emocionalmente histriônico. Não que tal abordagem seja problemática, já que definitivamente não é, mas é como Reichardt recusa uma exploração mais explícita e usa o micro para expressar algo dramaticamente arrebatador, tudo dentro de uma dinâmica de linguagem própria que se mantém orgânica até o seu desfecho.

Avaliação: 5 de 5.
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