dezembro 1, 2020

O Destino de Júpiter (2015) | Crítica

Jupiter Jones (Mila Kunis) é uma mulher simples que vive de maneira idem como uma espécie de “diarista”, limpando casas na oportunidade de, algum dia, sair de sua superficialidade cotidiana e alcançar algo maior, mas começa a perceber que pode ser um desejo impossível, até ser salva pelo misterioso Caine (Channing Tatum), revelando a moça que a mesma é mais especial do que aparenta. Jones é a descendente de uma linhagem intergalática e a herdeira da Terra, algo que incomoda os irmãos Abrasax, que acreditam serem os reais merecedores de controlar o planeta, que era comandado por sua falecida mãe. Balem (Eddie Redmayne), Titus (Douglas Booth) e Kalique (Tuppence Middleton) creem que devem assumir esse posto devido ao sangue que corre em suas veias e ao fato de Jupiter ser… simples.

Através de uma abordagem pouco declarada, Lilly e Lana Wachowski imprimem em sua fantasia espacial um olhar curioso sobre o problema da distinção de classes e como os menos favorecidos são vistos por uma ótica desvalorizadora – tanto é que, ao vermos a protagonista de frente a Balem e ela diz não ser a reencarnação da matriarca dele, o mesmo menciona: “Não, minha mãe nunca limpou um banheiro na vida“.

Porém, até chegar nas virtudes da produção, o roteiro das Wachowski tropeça em alguns segmentos, especialmente durante os 50 minutos iniciais: coberto de um didatismo enjoativo, o texto faz questão de contextualizar demais e verbalizar sem muito controle determinadas ideias, o que cansa com muita rapidez. Não somente isso, mas há um uso exaustivo de convenções de gênero e clichês que tampouco se encaixam com fluidez e são prejudiciais no ritmo, caminhando com uma lentidão até chegar onde quer. As cenas de ação até tentam controlar esses defeitos – e quase conseguem por sua qualidade – , mas não acabam sendo o suficiente. Mas, logo os personagens são estabelecidos e a ambientação terráquea é deixada no canto para que venhamos a apreciar a dimensão da criatividade que Lilly e Lana introduzem aqui.

Em primeiro lugar, as diretoras inserem uma vasta criatividade no que diz respeito a concepção dos conceitos, regras e estilização do mundo que possuem em mãos. Dos planetas até as naves, adereços, gadgets, as Wachowski vão do macro e micro com inteligência, valorizando dos elementos mais grandiosos até os menores: botas anti-gravidade, portais, águas rejuvenescedoras, armas e naves tecnologicamente atrativas, espaços amplos e com uma arquitetura fabulosa entre muitos outros que contar aqui seria indevido, já que potencializa a surpresa de acompanhar essa linha de inventividade.

A inteligência das diretoras/roteiristas é tamanha que, em determinado segmento da projeção, o roteiro constrói uma sátira fascinante ao sistema burocrático humano e quão entediante são todas suas etapas, além de mostrar como isso funcionaria em outros planetas, abordando um elemento textual que poucas obras de Sci-Fi se preocupariam em exibir, o que só reforça o cuidado na qual tiveram com a elaboração de seu universo e como aquele mundo é rico. 

De certa forma, é possível comparar a criatividade de “Jupiter Ascending” com a de “Avatar“, na concepção de raças, culturas, crenças, planetas e tecnologias, concebendo um mundo tão atrativo que puxa constantemente o espectador para entrar nele. No entanto, além de valorizar o talento das irmãs, é necessário reconhecer o esforço da produção artística para transcrever o universo fabuloso das páginas do roteiro para as telas: a arquitetura dos castelos e planetas mistura traços de uma construção remetente as locações do século XVIII, com colunas e traçados que indicam um certo classicismo acompanhado de um flerte com a composição tecnológica que traz determinados traços do cyberpunk, algo que fica mais nítido nos figurinos, concebidos com um rico detalhismo e uma atenção minuciosa a adereços dos vestidos, uniformes e vestimentas reais. Já a maquiagem ajuda a possibilitar uma criação de diferentes tipos de raças que não fosse diretamente ligada aos efeitos digitais – e por citá-los, é necessário elogiar como tampouco soam falsos e vem como um “plus” para as mais diversas ambientações, além de possibilitar segmento de ação eletrizantes, que são conduzidos com uma visão ampla das situações e uma idealização admirável.

Contudo, um dos elementos mais interessantes do texto das Wachowski é como as irmãs utilizam uma estrutura convencional do (a) “personagem simples que descobre ser destinado (a) a grandes feitos e ligado a algo maior do que a vida na qual levava” para discutir com sutileza e pontualidade diversos temas: o roteiro encontra espaço entre a ação e o deslumbre do universo para comentar sobre o destino e questionar até que ponto ele está além do nosso alcance; “será que podemos decidir o que iremos ser?” é uma das perguntas que Lilly e Lana fazem durante o desenrolar da trama.

A premissa é consideravelmente interessante por abordar a ideia de herança e nosso posicionamento ao saber que temos que lidar com um legado maior do que imaginamos; como honrar a imagem dos nossos antepassados? como lidar com o nosso passado? E, como havia comentado anteriormente, há uma pertinente e relevante crítica a respeito da divisão de classes sociais que é responsável pelo preconceito e segregação que tanto assola os menos desenvolvidos, constantemente subvalorizados por pertencerem a determinada classe econômica. 

Contando com boas frases de efeito e personagens cativantes, “O Destino de Júpiter” aspira criatividade e inteligência de suas realizadoras, construindo um universo rico em estética e conceitualismo, coberto de brilhantismo e se apropriando de estruturas convencionais para discutir destino, passado, hierarquia, classes sociais e capitalismo, não de uma maneira clara, mas através de um entretenimento aparentemente raso e superficial, mas que traz muito mais valores do que aparenta.

Avaliação: 4 de 5.
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