outubro 25, 2020

Presas no Paraíso (2019) | Crítica

Presas no Paraíso” parece um episódio piloto de uma série voltada para os espectadores adolescentes: começando de maneira promissora ao mostrar um mundo futurista – que muito tempo depois na narrativa, descobrimos que se trata de uma distopia – , apresentando conceitos inventivos e uma concepção visual admirável, o texto imediatamente desperdiça qualquer profundidade ou desenvolvimento complexo daquela realidade e dos personagens inseridos nela para se concentrar em uma trama vazia, supérflua, aborrecida e genérica, chegando a adotar abruptamente um tom de thriller enigmático na metade do segundo ato apenas para incitar algum conflito ou tensão inexistente. E como resultado final, temos uma produção coberta de criatividade, mas isenta de uma execução que valorize as ideias que apresenta. 
 
Dirigido pela estreante Alice Waddington e roteirizado por Brian DeLeeuw e Nacho Vigalondo (“Crimes Temporais“, “Colossal“), a obra demonstra ter uma atenção minuciosa no que diz respeito a composição estilística do projeto, algo que o destaca como experiência audiovisual: a cinematografia realça os espaços com uma iluminação esfumaçada e brilhosa, eficiente ao transmitir uma aura onírica, ao mesmo tempo que o emprego de cores com fortes tons de néon ajuda a incitar uma composição psicodélica com presença do esverdeado, azulado e, principalmente, roxo e rosa. Já o design de produção expressa esmero técnico ao criar cenários deslumbrantes, desde os pacíficos campos repletos de flores e plantas até a arquitetura detalhista dos espaços internos, com ornamentos que se assemelham a castelos e uma mistura entre a estética da classe alta do século XIX e adereços cênicos que sugerem o high-tech futurista da proposta. Os figurinos seguem a mesma cartilha: as roupas remetem a um classicismo de época, com longos vestidos e vestimentas mais “formais”, quase sempre preenchidas por uma vasta coloração ou inteiramente em branco. 
 
Infelizmente, todo o cuidado e virtuosismo estético não se estende a cautela com o roteiro e, principalmente, com a execução. Logo em seu primeiro trabalho, Waddington se revela pouco ousada na forma como conduz e estrutura sua narrativa. Ela pode até se preocupar com o apuro sensorial, mas esquece que a obra precisa ser mais que apenas a bela ostentação de estilos, esquecendo de valorizar o que mais interessa em seu universo: os conceitos. Das ideias que cerca a ilha, os mistérios, as perguntas, o mundo futurista da terra no período que se situa a história, entre outros, ou é desenvolvido da maneira mais preguiçosa possível, através de cansativos e risíveis conversas expositivas e exaustivas, ou é completamente ignorado, como as valiosas discussões a respeito das diferenças de classe ou a mensagem sobre a importância do livre-arbítrio e escolhermos os caminhos na qual iremos trilhar sem permitir que outros exerçam influência direta em nossas decisões. Todo o preciosismo que poderia materializar a produção em uma experiência reflexiva é desperdiçado por uma trama constantemente cíclica, quase sempre apertando a mesma tecla antes de introduzir os dispositivos de um thriller, não com sutileza, mas de forma atropelada, chegando a apelar para uma reciclagem de elementos do “Get Out” em seu fechamento (logicamente, todos mal aprofundados pelo roteiro e direção). 
 
Problematizado pela montagem apressada que parece uma colagem de momentos avulsos e conversas repetitivas das personagens pelos ambientes, nenhuma figura em “Presas no Paraíso” cria um interesse genuíno no espectador: Emma Roberts, uma atriz competente em exibir emoções de maneira convincente, é a melhor em cena por gerar algum tipo de pequeno envolvimento no que diz respeito a sua jornada pessoal, mesmo que seu conflito se resuma a uma convenção de gênero tola e óbvia. Já Eiza González tem um arco promissor envolvendo um amor contido que não ganha o foco que deveria e se torna superficial, além da atriz basicamente ser limitada a uma reação apenas – ou seja, a dela própria; Danielle Macdonald e Awkwafina possuem um drama atrativo que poderia intensificar a nossa empatia por Chloe e Yu, mas… adivinhem só? Mais um elemento supérfluo em seu aprofundamento. E se o quarteto central é prejudicado por uma dinâmica de relacionamento atropelada pela edição, o que comentar sobre Milla Jovovich? Se ela já teve talento algum dia, a franquia Resident Evil fez questão de eliminar, e a intérprete aparece com uma personificação afetada pelos exageros em expressões faciais e pela ameaça inexistente que representa, fazendo com que instantes na qual deveria intimidar o  público, leva a platéia ao riso involuntário, o que nunca é um bom sinal. 
 
Resumindo de forma mais clara e objetiva, “Presas no Paraíso” é decepcionante. Não por uma expectativa criada antes de seu lançamento, mas pela criatividade de conceitos e ideias desperdiçados em um roteiro vazio, desinteressante, previsível e enfadonho. Uma experiência estilisticamente louvável, mas textualmente pobre e falha, voltada completamente para uma geração que tampouco se preocupa em pensar sobre a arte, se satisfazendo em “desligar o cérebro” para se entreter. 
 
Algo lamentável, mas verídico.

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