Saint Maud (2019) | Crítica

Indiretamente ou não, a distribuidora A24 foi responsável pela inevitável proliferação do termo “pós-terror”, criado com a intenção de classificar obras que conseguiam “transcender” o mero projeto de gênero e explorar outros ares, como o drama por exemplo e temáticas mais psicológicas. Evidentemente, é um termo patético que segrega o horror a uma classificação inferior a de outros gêneros cinematográficos, argumentando que essas produções eram virtuosas por oferecer algo que vá além de sustos e elementos sobrenaturais. Como é de se esperar, muitos criticaram tal movimento e, por consequência, as produções que se apoiavam nessa onda. Isso sem comentar que, muito antes dessa possível tendência, já existiam obras que lidavam tanto com o horror quanto misturavam ele a outros gêneros. E iniciei falando dessa discussão recente pelo fato de Saint Maud, primeiro filme da diretora Rose Glass, ser mais um projeto que reforça toda essa busca por algo que seja maior que o terror.

Tal como os demais projetos da A24 que procuram esse terror mais refinado e elegante que rejeita o gráfico e os elementos mais clássicos de gênero em prol desse flerte dramático mais evidente, Saint Maud se prejudica pela ambição que jamais se materializa em sua forma. Seguindo os padrões de linguagem que fazem dos demais trabalhos da distribuidora serem peculiarmente semelhantes, de algum modo, Glass utiliza as ferramentas que tem em mãos com uma intenção estilística que soa menos como uma necessidade narrativa e mais como um fetiche sem razão prática: os diversos planos-detalhe de alguma ação específica, as duas sequências em slow-motion ou os enquadramentos de ponta-cabeça refletem essa procura por um embelezamento gráfico que sobrepõe o propósito dramático da técnica ou justifica com uma simbologia tola em sua obviedade, algo que se perpetua ao discurso temático central: o fanatismo religioso.

Há um rico conteúdo e uma forte dramaturgia no roteiro da própria Glass que, infelizmente, não se materializam na construção formal convencional da diretora, escolhendo as simbologias mais frágeis e óbvias para um projeto com um viés religioso, desde a cruz na parede que cai convenientemente para expor a queda moral na visão religiosa da protagonista até mesmo o arco dramático de Maud, personificada de modo deslumbrante por Morfydd Clark, que é corrido ao extremo e superficializado em sua abordagem durante toda a primeira metade, enfraquecendo o segundo terço da projeção que se dedica ao enlouquecimento da personagem. E quando o filme escolhe ser mais graficamente drástico ao mostrar o terror, isso se limita a (bons) momentos pontuais que até operam bem de maneira isolada, mas soam avulsos da obra como um todo (as sequências da levitação e os minutos finais são ótimos exemplares).

Além de toda essa superficialidade formal na abordagem de Glass, Saint Maud acaba sofrendo também com a dinâmica convencional e padronizada das produções que acompanham esse movimento do “pós-terror”, vide a encenação refinada em como filma os espaços, a fotografia alaranjada e pontualmente acinzentada e a montagem estratégica que corta situações em prol de “prolongar o impacto das mesmas”. Infelizmente, acaba sendo uma produção refém de modelos já estabelecidos (e até melhor trabalhados) em produções como Hereditário, A Bruxa ou, naquele que considero o mais próximo da obra de Rose Glass: O Chalé, de Veronika Franz e Severin Fiala, que explora a ideia do fanatismo de maneira mais funcional.

Avaliação: 2 de 5.
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