setembro 28, 2020

The Old Guard (2020) | Crítica

     A saga de Charlize Theron nos filmes de ação continua e com crescente evolução, desde “Aeon Flux (2005)”, sua forma não poderia estar melhor. É fato que a atriz tem uma disposição incrível, outro fato é que seu talento consegue chegar a limites que precisam ser alcançados e superados dentro da indústria. Desta vez ao seu lado temos Gina Prince-Bythewood, do ótimo “Nos Bastidores da Fama (2014)”; no casting ainda surge o nome da premiada diretora de fotografia Tami Reiker, é uma combinação que gerou uma expectativa desde o anúncio da produção e chega a Netflix como um dos seus grandes lançamentos do ano.

     Baseado na HQ homônima de Greg Rucka, o filme conta a história de um grupo de soldados imortais que atuam como mercenários, que entre um trabalho e outro, costumam praticar boas ações. A trama segue bem o caminho de sua origem na apresentação, mas opta por seguir um curso diferente na sua proposta. Acostumada a focar em uma história, a diretora, que conta com o criador da HQ para assinar o roteiro, se concentra nas questões pessoais e no visual para nortear seu trabalho. A inclusão do criador no texto do filme permitiu que as adaptações para o cinema fossem conduzidas de uma forma mais natural a partir das ideias de Rucka com a proposta da diretora, pareceu uma nova versão, uma espécie de “director´s cut” da HQ, mas o resultado final ficou aquém da intenção, o início promissor se entrega a saídas simples para o desfecho, porém, como falei anteriormente, o norte do filme não é o texto.

     O quesito da imortalidade é um ponto chave de discussão, se por um lado a longevidade é atrativa e suas escolhas permitem seguir o bem na sua jornada, essa mesma imortalidade impõe um “castigo” ao seu portador; viver para “sempre”! principalmente sabendo que a perda será uma constante na sua vida, uma verdadeira maldição, além disso ainda existe um conflito sobre a “evolução da humanidade”, em tom desestimulado, por razões obvias. Esse dilema se faz presente em diferentes personagens e cada um reage a esse impacto de uma forma diferente, é um pequeno momento de reflexão no enredo capitaneado pela ação. Nas mãos da diretora de fotografia, o longa apresenta ótimas ambientações e, em sua maioria, ótimas cenas de ação. As escolhas dos planos abertos e semiabertos na desértica Marrocos ou a ação fechada na longa sequencia de ação final, mostraram o bom entrosamento das duas.

     Se no universo das HQ´s as permissões são mais cabíveis e flexíveis, no universo cinematográfico alguns “tipos” não funcionam da mesma maneira, o vilão exagerado e estereotipado que funcionou na HQ, por exemplo, dificilmente terá o mesmo êxito no universo dos cinemas e aqui esse aspecto é irritante, uma verborrágica e bizarra versão de Lex Luthor do filme da “Liga Da Justiça” não tinha como dar certo. O orçamento de 70 milhões de dólares não permitiu ao filme atingir todo o seu potencial, ainda assim seus efeitos visuais conseguem entregar um bom resultado, oscilando em poucos momentos. O elenco do filme certamente levou boa parte desse valor, mas uma quantia boa poderia ter sido economizada com Chiwetel Ejiofor, o ator certamente não fez diferença aqui e seu personagem é apenas uma alça que vai e vem nas intenções com uma previsibilidade anunciada.

     Kiki Layne, que esteve muito bem em “Se A Rua Beale Falasse (2018)”, se destaca nos tons do filme, seja na ação ou no drama da sua personagem, muito pelo questionamento sobre suas habilidades que foram citadas anteriormente. Lucan Marinelli e Marwan Kenzari entregam uma boa química entre os seus personagens e representam bem uma parte da balança na mesma reflexão proposta. O destaque maior do filme é a protagonista, Charlize sem dúvidas é uma presença marcante nas produções que participa. Aqui sua dedicação não é diferente e mais uma vez, orientada dessa vez pelo diretor de “John Wick”, a atriz entrega tudo nas cenas de ação e sua personagem é a única entre todos os outros que não quer mostra a qualquer custo que é a mais “fodona”, quando requisitada em outros aspectos, nada lhe falta; parecendo ter ciência das falhas da produção, ela não se intimida em “carregar o piano”. É a ratificação de um estágio da sua carreira e certamente esse seu protagonismo irá abrir caminhos. The Old Guard agrada pela ação, pela protagonista e parte do elenco, mas se perde na essência da sua própria história e no desenvolvimento do seu vilão, causado uma reação em cadeia negativa no enredo, principalmente pelo início promissor.

Avaliação: 3 de 5.
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