dezembro 1, 2020

Uma Vida Oculta (2019) | Crítica

A poesia do martírio de um homem.

Terrence Malick tem uma forma de contar suas histórias que foge do convencional e constantemente faz com que seja classificado como “autoindulgente” – termo esse que desaprovo quando avalio seus projetos – pela suas narrativas longas, existencialistas e profundas que abordam temas como religão, universo, humanidade e a forma na qual esses três se relacionam. Pode se classificar o diretor/roteirista como um exemplo de “ame ou odeie”, já que divide seu público com sua linguagem pouco acessível. “Uma Vida Oculta” provavelmente é mais um exemplar que terá o mesmo efeito, com uma parte valorizando o que Malick transmite com a história real do camponês Franz Jägerstätter (August Diehl) e outra se entediando com as 3 horas de duração guiadas por um compasso paciente do realizador. 

O que mais me agrada nos filmes do Malick – os atuais, em especial – é como ele desafia a geração atual e sua absorção artística: o diretor retem completamente o dinamismo da obra e impõe um ritmo pausado que força o espectador a olhar mais do que somente aquilo que se encontra em tela, levando seu público a refletir sobre o que vê em cena. Tentar compreender o que Terrence quer dizer em suas obras é um processo complicado, mas extremamente agradável, já que o realizador nos leva a uma viagem existencialista que não somente faz com que venhamos a pensar, mas que tenhamos a capacidade de admirar o espetáculo estilístico que ele entrega. Assim como fez no brilhante “A Árvore da Vida“, Malick mostra boa parte de sua narrativa através do cotidiano simples e até trivial da família do protagonista, indo por momentos como o casal aparando as plantas ao redor de sua casa, trabalhando no campo, correndo, brincando, entre outras situações. Tudo de uma maneira extremamente poética. 

Malick é fiel a linguagem narrativa na forma como constrói suas histórias: os enquadramentos são quase sempre intrusivos, intercalando entre belos planos-abertos onde captamos a imensidão dos ambientes, mas jamais perdendo o olhar humano, encontrando em close-ups que registram o íntimo de seus personagens ou invadem momentos emocionalmente carregados e delicados, como aqueles onde vemos Franz com sua esposa, Fani (Valerie Pachner). Já a dinâmica de câmera é precisa ao caminhar com movimentos lentos em um deslocamento que soa como poético (palavra que provavelmente irá aparecer em diversos momentos do texto), fazendo com que até as aproximações mais aceleradas percam a intensidade que teriam – de forma proposital, não acidental. Terrence também não esquece de transformar a natureza em uma co-protagonista de sua viagem, sempre inserindo incertes onde vemos o cair de uma cachoeira, o balanço das árvores, campos imensos e imundados pelo esverdeado, montanhas e outros elementos do planeta, que cria uma presença imponente desses espaços na trama. 

A cinematografia de Jörg Widmer é bela ao compor enquadramentos precisos e que dizem muitos com pouco, empregando uma sutileza na composição da mise-en-scène que é admirável, além de utilizar com eficiência tonalidades de azul e conceber uma atmosfera visual melancólica com os ambientes quase sempre cobertos pelo nublado e uma iluminação nos espaços internos pelo uso de janelas e portas abertas quase divinal, que contrasta com muitas das reflexões do projeto. Já a trilha sonora do mestre James Newton Howard é perfeita ao inserir uma orquestra delicada na maneira como delineia o emocional de certas cenas, misturando piano, violino e uma acapela bem equilibrado na composição das melodias. Ainda no campo auditivo do projeto, o design de som é vital na capacidade que exerce de imergir o espectador ainda mais naquela localidade com o balanço das folhas, a água da cachoeira, entre diversos. Já a montagem transita entre as cenas com cortes secos ou por intermédio da tela preta, criando uma progressão rítmica instantânea, mas quase nunca dinâmica – e vale destacar a produção de arte na recriação minuciosa do vilarejo no início dos anos 40.

Como a maioria dos trabalhos do diretor, ele é tecnicamente virtuoso, algo indiscutível. Porém, são seus roteiros que recebem os julgamentos mais severos, algo que provavelmente ocorrerá aqui, ao menos que o espectador tenha paciência para caminhar no mesmo ritmo que o texto do realizador. Terrence aborda uma carga variada de reflexões profundas e complexas, passando por cada uma sem pressa, mas forçando o público casual a sair de sua zona de conforto cinematográfica. Malick encontra um espaço amplo para discutir sobre religião através de iconografias bem posicionadas que refletem sua completa descrença na fé e sua visão sobre Deus e a presença dele, com seus personagens constantemente buscando uma resposta do criador que nunca vem, algo que representa a procura humana desenfreada pela presença divina, e que, segundo os olhos de Malick, nunca aparece. Além disso, ele encontra um espaço para comentar a ineficácia do catolicismo e o egoismo que faz a instituição ser tão criticada e repudiada por muitos.

 Terrence constantemente insere voice-overs onde ouvimos Franz e Fani mencionando o que seriam cartas onde expõe o íntimo de seus sentimentos, seja a derrota emocional dele ou a fé de sua esposa, que continua a crer que seu marido volte para casa, mal sabendo ela que aqueles são seus últimos contatos, tudo com uma essência poética que torna os monólogos ainda mais belos e tampouco artificiais, mérito dos excelentes diálogos que inserem frases empregadas de forma adequada para que não soem com piegas ou dramaticamente convincentes. Porém, são os silêncios em que o filme encontra sua força – e sua carga reflexiva mais intensa: dos desabes emocionais de Franz na cadeia, os abraços dele com sua mulher, a preocupação de Fani e a falsa esperança nos olhares de que tudo venha a terminar bem, sendo que ambos sabem como isso irá se encerrar. É difícil definir o centro temático específico de “Uma Vida Oculta“, mas provavelmente ele envolve os laços familiares do protagonista e o martírio humano de renegar os males de sua espécie. 

O primeiro diz respeito aos belos segmentos do protagonista e sua vida pacífica ao lado da esposa e filhas, mostrando momentos de ternura e felicidade que logo são quebrados pelo contexto histórico da época (o filme se ambienta durante o início da década de 1940), desfazendo muito da calma que vivia. O amor entre eles é demostrado com uma forte sutileza, seja nos carinhos de Franz e Fani, nas brincadeiras familiares e no cuidado com suas filhas, tudo compondo um forte senso de empatia pela figura central, o que faz com que venhamos a sentir ainda mais o peso do que lhe ocorre a seguir, na qual Malick registra sem sensacionalismo ao mostrar violência, mas com uma precisão que faz com que venhamos a sentir o desespero e a agressividade da situação – algo bem exemplificado por uma sequência onde o ponto de vista é subjetivo. Já o segundo trilho temático aborda o desespero de fazer parte de uma guerra e o repúdio de um homem a um sistema opressor, algo que o leva para o caminho da morte, mas que para Franz pouco importa, já que o mesmo se recusa a matar para um regime retrogrado e perigoso, desafiando uma forla militar que ninguém se atreveria. E, nesse ponto que se encontra a excepcional performance de August Diehl que, por um lado, expressa desespero e tristeza ao saber que sua morte irá impedir de permanecer ao lado de sua família, mas compõe um seriedade que demonstra estar decidido a não se render tão facilmente, criando um sujeito deprimido mas que se recusa a entregar sua alma antes do momento.

Encerrando com a poesia existencial costumeira do cinema de Terrence Malick, “Uma Vida Oculta” é uma viagem reflexiva e profunda sobre a beleza do laço familiar e o martírio de um homem, tudo com uma progressão calma e imersiva, criando uma experiência que demora até que seu impacto se perca.

Avaliação: 5 de 5.
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