Vamos Falar de Polêmicas? #13 – “Black Washing”? A necessidade dos live-actions da Disney.

Há algumas semanas, foi escolhida a atriz para viver a princesa Ariel no live-action de “A Pequena Sereia”, mudando sua etnia para uma negra, e logicamente dando brechas para diversos discursos preconceituosos disfarçados surgirem, alimentando diversas discussões a respeito da escolha da Disney. Deixando claro logo de início, que, não é racismo não gostar da escolha da atriz ou da mudança pigmental da sereia ruiva, o que vai dizer se é o não é o discurso da justificativa do não gostar, que não pode em hipótese alguma ser pautado na diminuição da inegável importância desse feito, independente da motivação por trás dele ser puramente mercadológica, é uma via de mão dupla, que vai beneficiar a igualdade racial em quaisquer cenários.

E o argumento dessa importância não é simplesmente pode também ser resumido no “não existem sereias, logo não há problema em mudar a etnia”. É preciso entender o cenario de discrepância numeral de minorias na indústria, algo que racialmente falando exemplifiquei em um outro artigo (o do Oscar so White), onde demostro os privilégios vigentes históricos dos brancos com relação aos negros permitiram ao longo da história, que permitiu a criação de milhões de personagens relevantes em sua etnia. Ao olharmos quantitativamente, para os negros, os números são restritos a muito poucos dos anos 90 pra baixo, com uma melhora considerável após movimentos sociais fortes que amplificaram o sentimento de tolerância racial para o mundo, permitindo uma valorização de personagens negros de peso no cenario popular, pois agora com o mundo mais justo que antes, vale o investimento.

Contudo, ainda é muito longe de um cenario de igualdade justo, devido a tanto tempo necessário para uma mudança relevante acontecer e que ainda tem lá suas dificuldades diante de entornos que muitas vezes ainda resguardam pensamentos retogrados, portanto, não convém e seria sim racista se mudassem, por exemplo, a princesa Tiana para branca, porque já não há muitos personagens negros de peso na indústria, mudar a etnia de um, não faria o menor sentido em contexto social coerente. Já com os brancos isso não faz diferença, embora acredite que exista sim parênteses construtivos nessa jornada igualitária, sendo um desses a fala de que negros precisem de seus próprios personagens originais marcantes em vez de uma versão negra de algum já famoso.

É uma crítica que faz total sentido, bem como a motivação mercadológica por trás dela ser uma escolha mais inteligente. Como dito, mesmo com as melhorias pregressas do cenário de tolerância racial, ainda é difícil vender e conceber personagens de minoria novos de uma forma orgânica, importante e marcante para o repertório popular. Assim, é mais fácil para a Disney em sua acomodação já tardia de live-actions, puramente articulados como cópias nostálgicas mais representativas, simplesmente pegar e mudar a etnia para promover a tal inclusão até demasiadamente reforçada nesses remakes. O problema é, e por isso não gosto da escolha da mudança étnica, que isso evidencia uma incongruência na própria proposta dessas própria remasterizações até aqui, promovendo um cuidado tão grande com o fidedigno classico de suas animações, mas mudando o caso por pura conveniência social.

As vezes nem mudando, se pegarmos “Aladdin” ou “A Bela e Fera”, veremos que as próprias animações clássicas já se uma discussão autentica de representatividade feminina e negra, até por que Jasmine foi a primeira princesa de cor mais escura e a Bela a primeira a ser uma ameaça para o vilão por ter somente conhecimento. Então quando os live-actions pegam essas duas temáticas e verboragizam mais, perde-se um pouco da sutileza que tornava aqueles contos universais tão didáticos na forma como propagavam a inclusão, tornando o discurso falso, embora como dito, sempre importante. Se “Alice”, “Malévola” e “Dumbo” se justificam ao menos pela idade dos originais, eles também não vêm conseguindo se articular bem a essa modernização mais social para além disso, o que consequentemente vem criando uma sucessiva de filmes sem a mesma vida que o cartoon costumava deixar aquele conto.

É difícil e até injusto dizer que o mesmo vai acontecer com “A Pequena Sereia” julgando apenas pela escolha da atriz que, por via, é muito talentosa e seria uma escolha perfeita para viver até Tiana ou Moana se fosse o caso e mesmo se for, não vai ser ela a culpada nem se entregar uma atuação aquém do que o filme precisa. Meu sentimento tendo em vista o histórico recente de live-actions é de grande ceticismo, embora tenha um fio de esperança aí alavancado por “Mulan” que promete mudar esse cenario meramente copioso e trazer uma narrativa mais própria que abraça o contexto social organicamente, mesmo já tendo um original que o abraçava antes e talvez, “A Pequena Sereia” possa se encaixar nessa proposta de um universo novo, uma narrativa nova que traga mudanças significativas e coerentes com sua escolha interpretativa.

%d blogueiros gostam disto: