maio 28, 2020

X-Men: Apocalipse (2016) | Crítica

Após a decisão de Bryan Singer no que diz respeito a encerrar definitivamente a trilogia clássica e iniciar novos caminhos e possibilidades que abriu, o realizador pensou em resgatar uma essência mais exagerada e fantasiosa vinda das raízes dos mutantes, inserindo mais cor e energia a ação e aos elementos que rodeiam seus personagens – uma decisão consciente devido ao período oitentista na qual o projeto se ambienta. Por isso que o argumento sobre X-Men: Apocalipse ser uma obra deslocada dos demais capítulos da franquia (sem contabilizar os spin-offs do Wolverine e Deadpool) acaba sendo válido, porém isso não o torna problemático ou enfraquece como entretenimento, mesmo que o roteiro sacrifique o virtuosismo e profundidade temática presente nos filmes anteriores. 
 
Dessa vez, não existe qualquer vestígio de uma abordagem dramática intensa sobre preconceito, segregação ou algo do tipo, sendo extraída do roteiro em detrimento do divertimento de um filme blockbuster. Por um lado, é compreensível – até os mutantes tem arcos mais descompromissados de sua relevância social nos quadrinhos – , mas elimina uma carga reflexiva ainda maior em comparação aos outros projetos da franquia. Porém, o roteiro – que continua sendo escrito pelo Simon Kinberg… – erra ao iniciar com um ato-central fragmentado pelo excesso de informações, algumas fluem bem, já outras soam deslocadas e até ignoradas, sendo resgatadas muito tempo depois, o que prejudica os lapsos temporais (a cena da Mística é um exemplo, já que, na teoria, ela deveria ser simultânea, mas na prática, não ocorre isso). 
 
No entanto, quando o filme estrutura melhor a enxurrada de acontecimentos do ato-inicial e consegue se acertar, Singer entrega um entretenimento muito competente. Primeiro, ele cria um interesse gradual no trio de novos personagens: o Ciclope de Tye Sheridan é uma figura em desenvolvimento, mostrando o surgimento de suas habilidades e explorando a maneira que irá utilizar e aceitar aquilo que possui. Kodi Smith McPhee como Noturno encarna um alívio cômico divertido pela sua persona desajeitada e confusa, o que gera segmentos jocosos graças ao talento do intérprete. Porém, o real destaque entre as novas adições é a Jean Grey de Sophie Turner: se apresentando com uma aura interessante, aos poucos, compreendemos seus conflitos e a relação conturbada que possui com os poderes, algo que Turner expressa com competência em uma interpretação equilibrada entre o carisma e a entrega dramática, equilíbrio que faltava a encarnação feita por Famke Jansen, tornando a mutante em uma persona unidimensional e aquém de seu potencial nos três filmes conduzidos por Singer (e Brett Ratner). 
 
Porém, é a dinâmica fluída do trio que reforça suas performances: as interações dramáticas e cômicas são encenadas de maneira correta, divertindo e envolvendo o espectador com exatidão. James McAvoy como Xavier continua a transmitir uma imponência que o torna uma figura importante, já Michael Fassbender encarna Magneto de uma forma emocionalmente promissora ao mostrar o mutante vivendo de maneira pacífica com uma esposa e filha, algo que é composto superficialmente e logo revertido, inserindo um potencial que não se concretiza devido ao desenvolvimento frágil desse arco – contudo, o ator se demonstra mais uma vez como a escolha perfeita para viver o Erik jovem, entregando a carga emocional que o roteiro incita, mas não trabalha. Mas quem rouba a cena de todos os demais personagens é o Quicksilver de Evan Peters: além de ter um carisma inigualável aos seus companheiros em cena, protagoniza dois dos momentos mais marcantes da projeção. Jennifer Lawrence como Mística, por outro lado, demonstra um total desinteresse ao encarnar uma figura que aperta a mesma tecla desde Primeira Classe
 
Entrando na formação dos quatro cavaleiros do apocalipse, o subdesenvolvimento dos personagens é maior: além do já citado Fassbender, a integrante que mais sofre com a rejeição do roteiro é a Psylocke de Olivia Munn, que existe como um adereço de segmentos de ação e mal possui um desenvolvimento coeso ou um aprofundamento, se tornando uma peça irrelevante, mesmo com uma composição visual bela e fiel a essência dos quadrinhos. O anjo é exatamente a mesma coisa: possui uma concepção artística interessante – o segmento de sua transformação em arcanjo é muito bem executada – , mas é outro totem usado nos combates, se tornando uma figura vazia. No entanto, a Tempestade de Alexandra Shipp é a única que chega a alcançar algo que se assemelhe a um arco e a atriz se entrega a personagem com vontade, mas acaba se tornando um potencial desperdiçado de realmente darem uma importância maior a mutante. E, claro, temos Oscar Isaac encarnando Apocalypse da maneira mais artificial possível, cheio de frases de impacto e monólogos enjoativos, seu objetivo é pouco criativo e seu visual parece algo retirado dos seriados da DC Comics feitos pela emissora CW. 
 
Aproveitando a estilização oitentista que cerca a obra, Singer concebe as cenas de ação de maneira ainda mais bombástica se comparada ao filmes anteriores: a idealização mais ágil cria momentos que parecem retirados dos quadrinhos, empregando perfeitamente as habilidades dos mutantes em segmentos filmados de maneira clara, com um uso eficiente – embora esquisito, em momentos isolados – do CGI e com uma coloração mais nítida, especialmente no confronto final. A produção de arte é eficaz ao decorar determinados ambientes com uma composição claramente vinda dos anos 80 e ao vestir seus atores com roupas coberta por cores fortes, chamativas e características da época e detalhes como a jaqueta de Noturno que semelhante aquela utilizada por Michael Jackson no clipe “Thriller”. Infelizmente, a trilha de John Ottman aqui não alcança o impacto que construiu nos filmes anteriores, sendo apenas convencional e pouco memorável. 
 
X-Men: Apocalipse é inchado, tem personagens além do necessário, não consegue administrar todas as subtramas que possui, é tematicamente nulo e tem um antagonista que pouco impõe sua presença, mas diverte e tem personalidade própria, algo difícil em um subgênero consumido por filmes de heróis cada vez mais parecidos.
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